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MÍSTICA E MILITÂNCIA

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MÍSTICA E MILITÂNCIA. A Dom Pedro Casaldáliga, Profeta e sábio de cada hora, poeta do mundo e do Araguaia, que nos anima e assessora a construir relações novas onde a justiça se aprimora e a solidariedade se espraia. A hora e vez de um socialismo moreno,

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Presentation Transcript
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A Dom Pedro Casaldáliga,

Profeta e sábio de cada hora,

poeta do mundo e do Araguaia,

que nos anima e assessora

a construir relações novas

onde a justiça se aprimora

e a solidariedade se espraia.

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A hora e vez de um socialismo moreno,

Ele sempre anteviu e apostou Solidariedade, ternura entre os povos

A partir dos pequenos, ensinou.

Agora disso, algo antevê de novo,

Onde o Mistério se fez carne e acampou.

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Sentir-se novamente chamado/a ao compromisso libertador. Quem crê em Deus sabe que se aventurar neste caminho para a libertação é deixar-se conduzir pelo Espírito que “sopra onde quer; ouve-se a sua voz, mas não se sabe para onde vai nem de onde vem” (Jo 3,8). Como, no século IV, escreveu Agostinho: “Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Deem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tenha sede e suspire pela fonte da vida. Mostre-me esta pessoa e ela saberá o que quero dizer” (AGOSTINHO. Tratado sobre o Evangelho de João 26,4).

jos carlos mari tegui escrevia em um ensaio j em 1925
José Carlos Mariátegui escrevia em um ensaio, já em 1925:

“A inteligência burguesa ocupa-se com uma crítica racionalista do método, da teoria, da estratégia dos revolucionários. Que mal-entendido! A força dos revolucionários não está na sua ciência, mas na sua fé, na sua paixão, na sua vontade. É uma força religiosa, mística, espiritual [...] A emoção revolucionária [...] é uma emoção religiosa. As motivações religiosas se deslocaram do céu para a terra. Elas não são divinas, mas humanas e sociais”

(MARIÁTEGUI, José Carlos. El Hombre y el Mito. El alma matinal. Lima: Biblioteca Amauta, 1970, p. 22).

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Mariátegui desenvolveu esta tese a partir da análise das sociedades peruanas e latino-americanas. Ele sabia que, na história do nosso continente, os grandes movimentos populares de insurreição contra a tirania e de mais justiça e igualdade para comunidades indígenas ou camponesas sempre começaram ou vinham entrelaçados de motivações espirituais. Sejam os chamados “movimentos messiânicos populares”, como no Brasil Canudos, Contestado e outros, seja nos Andes as revoluções de TupaqAmaru, todos eles tinham uma grande conotação mística, sem a qual as camadas mais pobres não se mobilizariam.

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Mesmo no plano social da oficialidade, a maioria dos movimentos que, na América Latina, podemos chamar de revolucionários, como o do TupaqAmaru ou a Confederação do Equador, em Pernambuco, tinha a participação de padres e muitos crentes. Esta dimensão religiosa popular pode ser ambígua (por exemplo, milenarista e não histórica), mas, se os movimentos revolucionários canalizassem esta força de forma histórica e mais lúcida, sem dúvida, isso seria uma contribuição nova para as mudanças sociais.

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Se as sociedades tradicionais são quase sempre teocráticas, na América Latina, as comunidades indígenas e mais tarde as populações que delas descendem viveram algo como aconteceu com o povo bíblico no tempo do cativeiro. Quando, sob o domínio de povos estrangeiros, desapareceram os sinais sociais e políticos próprios da identidade do povo (no caso do Antigo Israel, a monarquia e o templo; no caso dos povos ameríndios, também a independência de seus governantes, seus templos e suas formas próprias de organizar a sociedade), a única força que restou para servir de resistência foi a espiritualidade.

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Nos tempos bíblicos, depois do cativeiro babilônico, o povo se organizou a partir da religião: foi o início do judaísmo. Na América Latina, a criatividade das populações locais fará uma releitura própria da religião dos colonizadores e manterá uma cultura ligada aos seus antigos valores espirituais. Quem conhece a realidade latino-americana como Mariátegui a conhecia sabe que, sem levar a sério esta dimensão espiritual do povo (mais ampla do que a religiosa institucional), qualquer movimento revolucionário terá muito mais dificuldade de se firmar.

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“Pessoalmente, ao ver, em vários países da América Latina, como as comunidades indígenas e afrodescendentes resistiram e continuam firmes diante da opressão e do massacre de mais de 500 anos, e como nestes anos recentes índios e negros têm se organizado e se constituído como protagonistas importantes de um novo processo social e político, não posso deixar de ver esta força da fé, e não somente da fé cristã, mas das crenças e espiritualidades ancestrais destes povos. Tenho descoberto, sim, que existem diferentes formas de crer.

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Pode-se dizer que, na Carta aos Romanos, Paulo mostra que existe uma fé que leva à justiça e um tipo de fé que não conduz à justiça (Rm 1,17ss). É isso que podemos ver, ao contemplar o processo das comunidades populares latino-americanas” (Marcelo Barros).

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O povo que andava nas trevas viu uma grande luz. A canga que sobre ele pesava e a vara que batia em suas costas foram quebradas.

anunciando o tempo do Bem-Viver de harmoniosa convivência de povos, pessoas, animais, plantas (CIMI).

  • Pois um menino nasceu (Is 9,1-16), acalentado e bafejado pelos animais. Hoje, os pequenos olhos indígenas miram ao longe o irromper de uma nova aurora que dissipa as trevas e quebra os grilhões que transformam os povos, pessoas e natureza em mercadoria,
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Uma espiritualidade inserida no caminho socialista, não é, especificamente, para cristãos ou para pessoas de fé religiosa, mas para as pessoas simples, ligadas a alguma religião ou não, que, no continente latino-americano e no Caribe, se sentem chamadas a mais vida e mais amor, em meio aos dramas e combates sociais com os quais nos defrontamos.

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Qual a força interior que fazia um rapaz ou moça de classe média de El Salvador, Nicarágua, Colômbia ou Brasil deixarem suas famílias, renunciarem a um futuro seguro e arriscarem suas vidas em combates insanos que compreendiam como lutas pela justiça e pela igualdade humana? Que força interior levou tantos camponeses/as a formarem, no Brasil, o Movimento dos Lavradores sem Terra (MST), ainda na época da ditadura militar, e a resistirem a tantas perseguições e riscos? Com que força as comunidades negras, perseguidas e marginalizadas, conseguiram resistir a tantos sofrimentos e manter muito de suas culturas e religiões originais, embora consideradas idolátricas e demoníacas por tantos ministros de Igreja?

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Como se explica o ressurgimento dos movimentos e comunidades indígenas, em todo o continente, quando muitos consideravam os índios todos como condenados à extinção? Que força interior levou o padre Josimo Tavares a não deixar os lavradores do Bico do Papagaio, abandonados à própria sorte, mesmo sabendo que fazendeiros provavelmente iriam matá-lo? Como explicar que o padre Ezequiel Ramín deixou a sua família e seus amigos na Itália e veio se internar com os lavradores de Rondônia para dedicar-se a eles até o martírio? E a dona de casa Margarida Alves, o lavrador Gringo, a irmã DorotyStang e tantos outros irmãos e irmãs, qual o segredo para terem a coragem e a força interior de darem sua vida pela causa do povo empobrecido?

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O próprio termo “espiritualidade” não é antigo e não aparece nas escrituras sagradas de nenhuma das religiões tradicionais ou antigas. Por isso, é fundamental esclarecer o que podemos chamar com este nome e que seja uma proposta de Espiritualidade pluralista, macroecumênica e socialista.

espiritualidade n o espiritualismo
Espiritualidade não é “espiritualismo”.

Algumas escolas de espiritualidade aprofundam uma visão nitidamente espiritualista. Há pessoas que, quando querem dizer que alguém é espiritual, o denominam de “espiritualizado”. No plano macroecumênico, respeitamos esta sensibilidade e não negamos que possa ter algum sentido e valor. Esta perspectiva é forte principalmente em grupos para os quais o ser humano é um espírito que habita um corpo, como uma carta dentro de um envelope.

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Na perspectiva bíblica e macroecumênica, uma verdadeira espiritualidade não pode ser compreendida como algo oposto à matéria. Nada tão contrário à espiritualidade como toda forma de irrealismo e falta de concretude na vida. Uma grande mística como Santa Teresa d’Ávila ensinava a suas discípulas a encontrar a Deus na oração, mas também em meio às panelas da cozinha ou quando descascavam cebolas. Ivone Gebara explicita que existe uma espiritualidade encontrada mesmo no meio do lixo e da sujeira, que é a realidade de tantas pessoas empobrecidas em nosso continente.

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Hans UrsvonBalthasar escreveu: “A Espiritualidade é uma atitude fundamental, prática ou existencial que a pessoa dá à sua existência religiosa, ou, mais geralmente, ao seu compromisso ético, como consequência e expressão que a pessoa dá a aquilo que acredita”. Traduzido concretamente, a Espiritualidade é “o sentido que se pode dar à vida”. Ora, que sentido teria a vida se não for relação com o outro? Algumas tradições religiosas ligam a Espiritualidade à busca de intimidade com a divindade, mas é preciso salientar com a tradição bíblica que o primeiro lugar no qual Deus encontra o ser humano é no outro.

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Na Bíblia, desde a pergunta de Deus a Caim: “Onde está o teu irmão?” até a promessa da Nova Jerusalém no Apocalipse, onde “não haverá mais nem pranto, nem luto, nem dor” (Ap 21) e, como diz Paulo: “Deus será tudo em todos” (1Cor 15), espiritualidade é reconhecer o divino no outro. Talvez até hoje, as pessoas que separam a espiritualidade do compromisso social, continuem perguntando como Caim: “Porventura, eu sou o guarda do meu irmão?” Na América Latina, na segunda metade do século XX, redescobrimos a importância das pessoas empobrecidas e oprimidas como sacramento da presença e da atuação divina.

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Cremos em um Deus que mostra sua predileção em se manifestar no meio dos empobrecidos. A solidariedade amorosa a estes que o padre Ignácio Ellacuría chamava de “povo crucificado” é elemento fundamental de nossa espiritualidade.

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Agora, a espiritualidade é chamada a ampliar a percepção deste outro que não é somente o outro humano, mas todo ser vivo e mesmo a criação. Ou nos unimos a todas as tradições espirituais que recordam à humanidade a presença divina em todos os seres e apelam para que o encontro com a divindade se dê nesta comunhão com a natureza, ou o esforço ecológico apenas técnico ou científico não conseguirá repercutir nas camadas populares em tempo suficiente para evitar a tragédia que já se faz anunciar.

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É um desafio desenvolver esta ecoespiritualidade baseada na conversão à alteridade que não é somente a descoberta e respeito ao Outro (Deus), ao outro (humano), mas ao outro (universo), porque, ao mesmo tempo em que se baseia na comunhão com a alteridade, esta espiritualidade tem a consciência de uma pertença tão profunda ao conjunto do universo que há grupos espiritualistas atuais que dizem: “Não existe o outro, porque eu faço parte do outro, e o outro faz parte de mim”. A experiência das tradições espirituais das comunidades negras e índias pode nos ajudar muito neste caminho.

espiritualidade tamb m n o quest o de moralismo
Espiritualidade também não é questão de moralismo

Toda espiritualidade supõe como método e também como consequência do caminho escolhido uma Ética de vida que privilegie o respeito a si mesmo, ao outro e ao universo. Neste sentido, toda religião tem mandamentos e todo caminho espiritual supõe uma ética de vida. Não para se viver a fé e sim porque se vive a fé. A ética não é causa de salvação ou fonte da espiritualidade e sim consequência. A espiritualidade nunca se poderia resumir à lei ou à moral. Ao contrário, se é espiritualidade verdadeira, tem de ser gratuita e livre.

espiritualidade n o intimismo
Espiritualidade não é intimismo

Para muitos grupos e correntes, sempre se liga espiritualidade com o que se passa no plano mais profundo do coração humano. Isso tem sentido, principalmente, em um mundo meio sem rumo e no qual as pessoas facilmente veem sua individualidade ser desrespeitada ou ignorada. É normal e positivo que se insista em propostas de interioridade, silêncio e quietude. Entretanto, uma espiritualidade macroecumênica e que pode ser socialista não deve ser considerada apenas como uma questão de intimismo ou simplesmente do que se denomina centração em si mesmo.

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A espiritualidade nos ajudaria a articular melhor esta relação entre o ser individual e a comunidade, assim como a dimensão da alteridade que cada pessoa deve descobrir na vida: o sentido e o profundo valor do outro. Dietrich Bonhoffer, teólogo luterano preso e assassinado na Alemanha nazista, dizia: “O Cristo que está em mim, está em mim para você e está em você para mim”. É sempre no outro que a gente encontra o princípio fundamental do qual a interioridade precisa para se nutrir.

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O que concluir, então, disso?

Espiritualidade é o que podemos chamar “uma vida conduzida pelo Espírito Divino”, ou, dizendo de outro modo, é acessar dentro de nós a parte melhor que temos e que nos torna progressivamente mais humanos e mais de acordo com o projeto divino. É na relação de comunhão com o universo criado que as pessoas espirituais de qualquer religião que seja, ou mesmo as que fora das estruturas religiosas amam a vida e buscam a justiça podem dizer que a meta da espiritualidade é receber o Espírito Santo para nos tornar mais humanos, tão humanos que seríamos divinos. Os cristãos podem dizer: “como Jesus Cristo”.

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Todo ser humano é habitado por uma inquietação existencial que tem um lado bom quando o faz caminhar e peregrinar para o melhor de si mesmo e que é negativa quando o divide interiormente e o paralisa. O acomodamento é antiespiritual. Se nos deixamos, pouco a pouco, contagiar pela mornez ou tibieza interior, a rotina vai tomando conta da vida, e o fogo do amor se apaga, sem que a gente nem perceba. Existe uma angústia que é inquietação espiritual e que fez um homem como Santo Agostinho (em 386) chorar no jardim de sua casa e depois expressar isso em uma oração: “Criaste-nos para Ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não repousar em Ti” (Confissões, Livro 1, capítulo1).

espiritualidade e m stica dos movimentos populares
Espiritualidade e mística dos movimentos populares

Quando os movimentos e pessoas falam em “popular”, não estão se referindo às grandes massas desorganizadas das periferias e mesmo do campo, e sim a grupos organizados e com uma visão de vida determinada. Comunidades cristãs e mesmo organizações de classe média bebem desta espiritualidade de comunhão com os empobrecidos e desenvolvem uma verdadeira espiritualidade socialista que, se não é diretamente popular, é centrada na solidariedade e comunhão com os mais empobrecidos e, por isso, pode-se chamar de “espiritualidade a partir do povo”.

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O termo “espiritualidade” não é unívoco. Geralmente era usado como movimento dentro das religiões. Cada vez mais, no mundo atual, tem servido para designar uma busca de profundidade interior e social que independe das religiões e tem como raiz e cerne a opção humana da amorosidade solidária e da ética. Dentro de cada ser humano e em todo o universo, está presente esta energia de unificação interior e de renovação. Entretanto a vida que levamos é tão dispersiva e fragmentada que precisamos encontrar métodos para sintonizar com esta energia e conseguirmos viver de forma profunda este amor que o Espírito (seja Deus, seja a vida, seja a revolução) nos proporciona.

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Para a maioria do povo isso continua acontecendo através das culturas religiosas indígenas e afrodescendentes. Não se trata de manter tradições religiosas, mas, a partir destas tradições, “deixar-se conduzir pelo Espírito de Deus”. Isso não é um processo espontâneo ou automático. Precisa ser cultivado e nutrido como opção de vida e como caminho pessoal que se expressa no plano comunitário. Isso é desenvolvido por muitos setores latino-americanos através das comunidades eclesiais de base e de movimentos populares ligados a Igrejas ou religiões tradicionais, mas também existem setores que, simplesmente, vivem isso na abertura de uma interioridade disponível ao outro e à justiça social.

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Toda verdadeira espiritualidade quer tornar possível o que , aos olhos do mundo, parece impossível. Pretende, pela própria experiência pessoal, iniciar e tornar possível a Utopia que desejamos para a humanidade e para todo o universo. Até pouco tempo, nos meios socialistas, não se podia falar em utopia. Quando alguém queria criticar um pensador socialista cuja proposta parecia inconsistente, o chamava de “socialista utópico”. Só recentemente, depois que Ernest Block proclamou: “O ser humano é um animal utópico”, a Utopia foi assumida como elemento do caminho transformador da vida.

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Utopia vem de um termo grego que significa “o não lugar”. No século XVI, Thomas Morus assumiu este termo para designar uma terra ideal que seria o avesso da organização social inglesa na qual ele vivia. Hoje, falamos de um “socialismo novo” para nos referir ao compromisso com a construção de um “mundo novo possível”, no qual acreditamos e para o qual queremos consagrar nossa forças e nossa vida. Valorizamos suas mediações úteis e necessárias, como o processo de transformação social que, mesmo ainda incipiente, está ocorrendo em vários países da América Latina. Este sonho vem dos inícios do século XIX e foi retomado na Venezuela e em outras regiões do continente, bem antes do atual governo venezuelano .

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Todos nós respeitamos o heroísmo da experiência socialista cubana que conseguiu democratizar o mais possível a educação, a saúde e mesmo a moradia, bens tão essenciais para todos os povos. Entretanto, hoje, grande parte da humanidade não se contenta mais com experiências parciais e localizadas. Quer se comprometer com uma sociedade internacional mais justa e igualitária que torne não somente possível o mundo novo que desejamos, mas que comece a ensaiá-lo. Para viver esta esperança que mobiliza o mais profundo das energias humanas, é preciso ter o que alguns movimentos da sociedade civil, como a Via Campesina, chamam “a mística”, isto é,

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uma motivação mais profunda do que um interesse pessoal ou mesmo um projeto político, por mais justo que este seja. Hoje, aumenta no mundo cada dia o número de pessoas que vivem este fogo interior do desejo de mudanças e a generosidade para consagrar-se a este caminho e o tornar real no dia a dia da vida. Muitas dessas pessoas, mesmo sem se sentir ligadas a nenhuma religião ou tradição espiritual específica, são motivadas por uma verdadeira fé na humanidade e um amor compassivo ao planeta Terra. Precisam se encontrar nos diversos fóruns sociais para alimentar sua confiança na vitória. Como Paulo diz sobre Abraão,

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o homem envelhecido chamado a iniciar um futuro novo: “é alguém que acredita, mesmo esperando contra toda a esperança” (Rm 4,18). Este movimento espiritual nasce de uma descoberta profunda, não só intelectual, mas vivencial do sofrimento causado por injustiças e pelo empobrecimento produzido na maioria da população do mundo. Esta constatação que toca no mais profundo do ser pede uma resposta de compromisso de vida efetivo e afetivo. Não é algo que se possa viver somente como assessor, consultor, ou advogado. É fruto e expressão de um compromisso pessoal que pede algum nível de comunhão de vida e de destino com os mais pobres.

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Movimentos como o MST e a Via Campesina usam o termo mística para explicar a força interior ou motivação mais profunda que leva as pessoas a doarem suas vidas à causa dos oprimidos e à busca de uma terra para todos, assim como de uma justiça mais profunda e verdadeira no mundo. Concretamente, nos encontros, a mística pode ser uma sessão de motivação e de aquecimento comunitário que se faz no começo de cada dia. Sem dúvida, a motivação é fundamental, e a mística seria mais do que uma razão econômica, somente social ou mesmo ideológica, para alguém arriscar a própria vida e se doar até o fim em um caminho de justiça.

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Por mais que este elemento seja importante, a mística é mais do que algo intelectual. É um caminho amoroso e que envolve todo o ser. Podemos compreender a mística como a força amorosa que nos leva à doação do nosso ser à causa da justiça e da transformação do mundo, até o ponto de arriscar a vida e por nisso todas as nossas energias. Às vezes, se fala também em espiritualidade. Se a mística é esta energia amorosa e de doação da vida, a espiritualidade pode ser considerada como o método adequado para se alcançar esta unidade interior e esta força afetiva do amor divino vivido na experiência cotidiana.

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Em geral, na tradição das religiões, a Mística é compreendida como a intimidade com o Divino ou os graus mais altos da espiritualidade. Antigamente, quando se dizia que tal pessoa é mística, seria quase como se dissesse que tal pessoa tem uma experiência própria e mais elevada do divino dentro de si. Tem experiências extraordinárias espirituais como “transes”, “visões”, ou simplesmente uma alta experiência contemplativa. Hoje, tentamos resgatar este termo para o cotidiano de nossas existências. Aí se compreende a mística como o próprio caminho do amor e da vivência, a partir do Espírito.

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É como uma energia divina dentro da pessoa. A mística seria o estado de pessoa habitada pelo Espírito. Há pessoas e grupos que vivem o caminho revolucionário com tal amor e fervor que parecem ver o que os outros não veem e experimentar uma alegria e uma confiança na vitória que os outros não percebem.

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Em outras épocas, se absolutizavam técnicas e métodos de espiritualidade. Na história das Igrejas, se falou muito em “escolas de espiritualidade” com seus diferentes métodos. As escolas orientais insistem no esvaziamento do coração para uma unificação interior que é essencial ao processo. As tradições negras e indígenas se baseiam no Axé como “energia e comunhão universal de amor” com as pessoas e com todas as criaturas. Do mesmo modo, hoje, se poderia falar em uma escola socialista de espiritualidade, no sentido daquilo que a experiência concreta do povo latino-americano na caminhada pela transformação social do continente pode trazer como contribuição específica

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a quem deseja viver esta graça da espiritualidade e da mística, tanto pessoal como comunitária, assim como vice-versa, isto é, a contribuição da espiritualidade no processo social transformador. Aqui não se trata de “inventar” métodos ou caminhos espirituais, e sim de perceber como as pessoas simples e que dão a vida pela causa alimentam sua espiritualidade e como unem sua fé com sua opção política. É um assunto muito variado e, ao mesmo tempo, íntimo. Falar de espiritualidade profunda é como se desnudar. Podemos aqui vislumbrar alguns elementos deste caminho e apontar alguns rumos, mas, só conseguiremos balbuciar o mistério de amor que envolve tudo isso.

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Para quem segue Jesus Cristo como mestre, o fundamento de toda a vida é a aliança de intimidade com Deus, através do discipulado e do seguimento de Jesus. É um caminho de fé, sem o qual todo o mais perde o sentido. No caminho pluralista e socialista, este caminho pode ser vivido não como um retraimento ou sectarismo religioso, e sim como valorização de tudo o que é humano e amoroso.

os atuais caminhos da m stica
Os atuais caminhos da mística

A mística é universal. Habita todas as religiões. Apresenta-se como uma experiência de intimidade com o Mistério Divino, presente no próprio ser e atuante no universo. Em geral, a mística se processa em três níveis.

a m stica do cosmos
A mística do cosmos

Desenvolvem este tipo de mística os caminhos espirituais que adoram a divindade nos elementos e seres da natureza. Na América Latina, muitas tradições indígenas e afrodescendentes aprofundam esta mística do cosmos. Antigamente, o preconceito das religiões monoteístas chamava estes caminhos de “panteístas” ou até “animistas”. Até hoje, por causa de uma leitura fundamentalista e às vezes até fanática da Bíblia e da fé, pastores neopentecostais e mesmo membros de alguns grupos cristãos acusam as religiões indígenas e negras de serem idolátricas e até demoníacas.

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Fazem estas acusações sem as conhecerem suficientemente, somente pelo “ouvir dizer” e as julgando “de fora”. Desde os tempos coloniais, estes grupos têm sido injustamente perseguidos e condenados.

Desde certo tempo, teólogos europeus e latino-americanos nos ajudam a distinguir o panteísmo (tudo é Deus) do que eles denominam “panenteísmo” (Deus está em tudo), verdade de fé que a maioria dos crentes aceita e professa.

a m stica do eu da interioridade radical
A mística do eu – da interioridade radical

Houve épocas nas quais a maioria das religiões, para manter a verdade da “transcendência divina”, falava de Deus como um ser perfeito, fora do universo e, de certa forma, separado da sua criação e distante de nós. Cada vez mais, crentes de todas as tradições aceitam que, mesmo se Deus não se reduza a uma dimensão íntima do ser humano, se manifesta em nós e não fora de nós. Santo Agostinho dizia: “É mais íntimo a mim do que eu mesmo”.

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Hoje, muitos grupos espiritualistas aprofundam esta mística da presença divina no próprio eu, com o risco do individualismo ou até de se pensar que o que eu quero é sempre o que Deus quer. Na década de 40, um teólogo luterano, Dietrich Bonhoeffer, dizia: “O Cristo que está em mim está em mim para você, e o Cristo que está em você, está em você para mim. O Cristo que está em mim, para mim mesmo, é fraco. É forte para você, e o que está em você é forte para mim”. Assim, os cristãos creem que é sempre através do outro que cada um descobre Deus presente no íntimo do próprio coração humano.

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Esta mística que une a dimensão interior e, ao mesmo tempo, vive a partir da valorização essencial da “alteridade” (o sentido do outro) é muito importante em uma relação social e para podermos construir juntos uma espiritualidade socialista. Correntes recentes da teologia cristã, na América Latina principalmente a Teologia Feminista, nos ajudaram a revalorizar o corpo humano como fundamental na espiritualidade. Interioridade não significa apenas valorização da alma ou do espírito.

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Aliás, no hebraico bíblico não existe um termo para designar propriamente o que chamamos de “alma”. A palavra nefeshdesigna a garganta e especificamente a respiração. Daí, a compreensão de que a alma seria o sopro da vida e depois a percepção da ruahcomo sopro ou espírito. O ser humano não é um espírito que habita um corpo, mas é um todo, no qual eu sou o meu corpo e este corpo é templo do Espírito Santo e santuário divino. Por isso, tudo o que diz respeito ao corpo (saúde, comida, os afetos sensíveis e a sexualidade) deve ser valorizado e profundamente respeitado como lugares nos quais o Espírito atua e se manifesta.

a m stica do absoluto
A mística do absoluto

Este tipo de mística é desenvolvido principalmente pelas tradições monoteístas. O mistério divino toma o nome pessoal de Deus que parece ter vindo das línguas indoeuropeias e queria dizer dia ou luz. Então, esta mística se desenvolve em termos de uma relação eu e tu, uma intimidade de aliança ou comunhão com a divindade.

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Não se trata de fusão (do eu em um oceano divino), nem apenas de um processo de divinização. Para as comunidades judaicas, cristãs e islâmicas, este processo existe e é fundamental na espiritualidade, mas é consequência da fé e da relação com o Tu divino. Este Tu divino não está fora do universo, nem se manifesta como uma força poderosa exterior ao ser humano. Ao contrário, como ensinava Agostinho no século IV: “É mais íntimo a mim do que eu mesmo”.

concluindo
CONCLUINDO

Existe, por um lado, um interesse imenso e novo sobre a mística necessária aos movimentos, como também uma percepção dos grupos de que, se conseguirmos viver esta unidade entre espiritualidade e opção revolucionária nos nossos movimentos, teremos uma força nova e uma maior qualidade de opção nos militantes. Sem dúvida, a experiência dos movimentos populares latino-americanos é a de que a participação dos grupos cristãos e espirituais foi decisiva e importante para o aprofundamento do processo. É um caminho de enriquecimento mútuo.

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A opção socialista e de solidariedade no caminho humano contribuiu profundamente e trouxe novo sentido à fé e ao modo de viver a espiritualidade cristã. Esta é a experiência cristã das Igrejas na América Latina, desde os anos 70.

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Agora chega o momento de relançar a pergunta em um contexto novo do processo social. Neste caminho novo do socialismo latino-americano e em uma atitude de humildade e de inserção despretensiosa, será que os cristãos e mesmo outros grupos espirituais têm alguma contribuição específica para este processo socialista novo, ao qual estamos chamando de “bolivariano”? Certamente, esta não é uma questão fácil de responder, mas tentemos abordar algumas questões que não são exclusivas dos cristãos, nem muitas vezes comandadas por eles, mas que a fé e a espiritualidade vindas do Evangelho têm algo a dizer de próprio e até mesmo de específico.

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Os cristãos participaram ativamente da revolução sandinista nos anos 80. No Brasil,com a primeira experiência do Partido dos Trabalhadores, em grande parte nascido e crescido a partir das lutas da pastoral operária e das comunidades cristãs de base, também homens e mulheres cristãs, assim como pessoas de outras tradições espirituais, como das religiões afrodescendentes, tiveram uma participação ativa nesse processo. Desde as lutas do começo dos anos 90 de revalorização das culturas indígenas, cristãos inseridos entraram nos movimentos indigenistas.

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Desde o início do caminho, muita gente temeu uma espécie de “cristandade de esquerda”. Sempre se procurou salvaguardar o caráter laical e pluralista destas experiências. Como nos diversos fóruns sociais, os cristãos se inserem na orquestra, não como quem seria o maestro, mas apenas para tocar na sinfonia e ser nela guiados e coordenados por outros. De modo algum, os movimentos de pastoral popular aceitariam se tornar partidos socialistas cristãos ou chamem como se chamarem. Sabem que as experiências da impropriamente chamada “Democracia Cristã” na Itália e em outros países foi desastrosa e não teve nada a ver com o Evangelho ou com a inspiração mais autêntica da fé.

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A imagem mais usada no início do processo de inserção e nos movimentos de ação dos cristãos no meio rural e urbano sempre foi a do “fermento na massa”, levedo que atua a partir de dentro, quase sem aparecer. No processo recente dos diversos fóruns sociais, aprendemos a participar da orquestra maior sem que sejamos os maestros, e nem escolhamos as melodias a serem tocadas. Simplesmente, somos participantes desta sinfonia nova da comunhão dos seres humanos entre si e da sintonia entre o ser humano e o universo.

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Perguntaram ao Dalai Lama... “O que mais te surpreende na Humanidade?”

E ele respondeu:

“Os homens... Porque perdem a saúde para juntar dinheiro, depois perdem dinheiro para recuperar a saúde.

E por pensarem ansiosamente no futuro, esquecem do presente de tal forma que acabam por não viver nem o presente nem o futuro.

E vivem como se nunca fossem morrer...

... E morrem como se nunca tivessem vivido”.

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Compilação e adaptação realizada por:

Nivaldo Aparecido Silva

Livro consultado:

“Para onde vai Nuestra América

Espiritualidade socialista para o século XXI”

Autor: Marcelo Barros

Nhanduti Editora

240 páginas

São Bernardo do Campo – 2011

Imagens: Internet

Jacareí – SP

1º/04/2012

E-mail: nasmbs@yahoo.com.br