Morrer em vida é fatal
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Morrer em vida é fatal Martha Medeiros. Nunca esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convicção: “Até os 100 anos”. O repórter, provocador, insistiu: “E depois?”. “Ué, depois vou aproveitar a vida”.

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Morrer em vida fatal martha medeiros

Morrer em vida é fatal

Martha Medeiros


Morrer em vida fatal martha medeiros

Nunca esqueci de uma senhora que, ao responder por quanto tempo pretendia trabalhar, respondeu com toda a convicção: “Até os 100 anos”.

O repórter, provocador, insistiu:

“E depois?”.

“Ué, depois vou aproveitar a vida”.


Morrer em vida fatal martha medeiros

É de se comemorar que as pessoas aparentem ter menos idade do que realmente têm e que mantenham a vitalidade e o bom humor intactos – os dois grandes elixires da juventude.

No entanto, cedo ou tarde (cada vez mais tarde, aleluia), envelheceremos todos.

Não escondo que isso me amedronta um pouco.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Ainda não cheguei perto da terceira idade,

mas chegarei, e às vezes me angustio por

antecipação com a dor inevitável de um dia

ter que contrapor meu eu de dentro com

meu eu de fora.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Rugas, tudo bem.

Velhice não é isso, conheço gente enrugada que está saindo da faculdade.

A velhice tem armadilhas bem mais elaboradas do que vincos em torno dos olhos.

Ela pressupõe uma desaceleração gradativa: descer escadas de forma mais cautelosa, ser traída pela memória com mais regularidade,


Morrer em vida fatal martha medeiros

ter o corpo mais flácido, menos frescor nos gestos, os órgãos internos não respondendo com tanta presteza,

o fôlego faltando por causa de uma ladeira à toa, ainda que isso nem sempre se cumpra: há muitos homens e mulheres que além de um ótimo aspecto, mantêm uma saúde de pugilista.


Morrer em vida fatal martha medeiros

A comparação com os pugilistas não é de órgãos internos não respondendo com tanta presteza,

todo absurda: é de briga mesmo que

estamos falando.

A briga contra o olhar do outro.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Muitos se queixam da pior das invisibilidades: órgãos internos não respondendo com tanta presteza,

“Não me olham mais com desejo”.

Ouvi uma mulher belíssima dizer isso num programa de tevê, e eu pensei: não pode ser por causa da embalagem, que é tão charmosa.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Deve estar lhe faltando ousadia, agilidade de pensamento, a mesma gana de viver que tinha aos 30 ou 40.

Ela deve estar se boicotando de alguma forma, porque só cuidar da embalagem não adianta, o produto interno é que precisa seguir na validade.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Quem viu o filme “Fatal” deve lembrar do professor sessentão, vivido por Ben Kingsley, que se apaixona por uma linda e jovem aluna (Penélope Cruz) e passa a ter com ela um envolvimento que lhe serve como tubo de oxigênio e ao mesmo tempo o faz confrontar-se com a própria finitude.


Morrer em vida fatal martha medeiros

No livro que deu origem ao filme (O Animal sessentão, vivido por Ben Kingsley, que se apaixona por uma linda e jovem aluna (Penélope Cruz) e passa a ter com ela um envolvimento que lhe serve como tubo de oxigênio e ao mesmo tempo o faz confrontar-se com a própria finitude.

Agonizante, de Philip Roth), há uma frase que

resume essa comovente ansiedade de vida:

“Nada se aquieta, por mais que a gente

envelheça”.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Essa é a ardileza da passagem do tempo: ela não te sossega por dentro da mesma forma que te desgasta por fora.

O corpo decai com mais ligeireza que o espírito, que, ao contrário, costuma rejuvenescer quando a maturidade se estabelece.


Morrer em vida fatal martha medeiros

Como compensar as perdas inevitáveis que a idade traz? Usando a cabeça: em vez de lutarmos para não envelhecer, devemos lutar para não emburrecer.

Seguir trabalhando, viajando, lendo, se relacionando, se interessando e se renovando. Porque se emburrecermos, aí sim, não restará mais nada.


Morrer em vida fatal martha medeiros

FORMATAÇÃO: Mima (Wilma) Badan Usando a cabeça: em vez de lutarmos para não envelhecer, devemos lutar para não emburrecer.

mimabadan@yahoo.com.br

Texto publicado no jornal ZERO HORA em 03/05/2009

MÚSICA: My way

Interpretação: Frank Sinatra

IMAGENS: Retrato de Cora Coralina

(Repasse com os devidos créditos)

www.mimabadan.blogspot.com

www.slideshare.net/mimabadan