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pre textos marjnaus

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w i l t o n c a r d o s o. pre textos marjnaus. PARTE I descurso agora agora. aviso aos marjnautas esta página expirou quando o poeta espirrou em seu zênite zen (auge transcen dente) ninguém (nenhum leitor) leitor marjnauta a espiou. quero um texto claro preciso

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Presentation Transcript
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w

i

l

t

o

n

c

a

r

d

o

s

o

pre

textos

marjnaus

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PARTE I

descurso

agora agora

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aviso aos marjnautas

esta página expirou

quando o poeta espirrou

em seu zênite zen

(auge transcen

dente) ninguém

(nenhum leitor)

leitor marjnauta

a espiou

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quero um texto claro preciso

água límpida doce didática

quase matemática lógica

metros ritos incisivos

sobre a carne das palavras

reduzidas a osso e oco

cubos e axiomas sem eco

e depois de toda essa assepsia

injetar algumas gotas de anexato

o mínimo milímetro preciso

para ante tanta limpidez desse deserto

estontear todas as rotas suas

corpo repleto

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sob

o pre

texto de en

saio textos anex

atos por onde

possam passar

uns fios de

vida

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narciso se vê na f(r)onte

na f(r)onte de todos os mitos

narciso se transforma

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errar a gramática

errar a rima

errar a raiva

errar com raiva e força

(e riso)

errar tudo e tanto

até o (de) sempre

ser

o último espanto

até que reste apenas

penas

de um vôo

errante

ERRÁTICA

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popsia

nas margens dos netgócios

o net()ócio

e

.

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vento nas folhas

passar as tardes longe

vendo o vidro

mostrar-me o lento

fluxo de tempo

e a chuva chegando

esquecer todos os manda-chuvas

volver-me todo (e só sei se entregar-me

se tragar-me até o último pulso)

ao luxo de um frêmito de vácuo

caos e acaso miríades ninguéns

acolhei estas ondas quase domadas

quase concêntricas em si (mim)

lançai-as ao descompasso anexato

do fluxo desta chuva

não reconhecer-se

esquecer todos os abismos

apagar as cismas

soltá-las prisma

cacos nacos

de lembranças refugadas

num cisma

nego-me e pego apenas

penas flutuantes

amantes de uma lua

de rua

chuva

jamais me houve

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estar doente

tem suas vantagens

de ver assim meio de esgueio

gente bicho coisa

assim querendo cair

a gente atravessa o mundo de lado

meio deslumbrado meio soçobrado

a vida trisca num quase

num se ou numa frase

nem doída nem satisfeita

viver doente empestiado ou demente

assim meio sem jeito é feito

fazer de qualquer ponto

da vida uma tangente

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aqui dentro

bom dia doutor diz a secretária

bom dia de volta e pensa:

vou te comer salafrária

e ela consigo: seu pança seu velho canalha

me faz um favor doutor...

aqui dentro

bom dia doutor e lá fora

barulhos de carros e danças

de folhas ao vento na tarde

calor de sol e de asfalto

pedaços de céu nas vidraças

um doido vadia as ruas

cigarras dormem nos galhos

como a vida mais vida valia

se a vida fosse toda fora

mais lia mais ria mais dia

vadia vazando mais vida

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a vida toda um fora

olharmo-nos nos olhos

e esquecer as teias todas

serpeando entre nós

e o mundo esquecer

inclusive nós mesmos

nada mais oculto

sob nosso olhar

apenas ar e mar

gelo e areia desertar

desterrarmo-nos do mundo

de tudo o que é profundo

suspensos

sem nenhum mistério

gravidade alguma

entre nosso olhar

vazio de nós

vadia calmo o caos

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a música vital

transcorre na arritmia

da viola incontrolável

e sua báquica melodia

embriaga as razões

na harmonia do caos

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hoje amanheceu tão fresco

não a manhã nem o ar

nem esta brisa em mim tão leve

amanheceu o dia em mim

como há muito não fazia

soprou uma brisa breve

no meu pensamento

fez-me esquecer de pensar

esquecer do dia duro por vir

esquecer de mim tão leve

eu estive esta manhã

a alma tão calma tão nova

tão alva quase não havia

como em menino tudo

era descoberta e magia

tão fresco amanheceu-me o dia

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oração da volta do supermercado
  •  carro trânsito compras
  • serviço amanhã
  • dívidas ontem
  • são baco e santo orfeu
  • protegei-me
  • para que eu nunca perca
  • o poder de perder-me
  • num pôr de sol
  • como este
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não ter que ler

não ter que fazer

não ter que ver

se vai dar ou faltar

não comedir

nem se angustiar

augusto o dia

em que como você

velho

não ter que ter

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e agora zé

literatura acabou

contra-cultura

é a favor

utopia rodou

pé na estrada é turismo

ismo nenhum sobrou

todo sonho so

çobrou

e agora zé

droga é mercado

marginal é orga

nizado

toda rima é suspeita

de conspirar com uma cifra

cisma alguma

vai dar

n’algum cisma

e agora zé

que fazer do que resta

da festa

que que eu faço com o agora

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palmo a

palmo o

espaço

digital

izado

as margens

sempre

mais

estreitas

tornar-se

mais

rar

efeito

vazar

pelos

poros

das mar

gens

tornar-se

mais mar

ginal

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ex-littera

a metáfora desaforada

o poema sem tema

a tradição travestida

a decadência da transcendência

o resto dos mestres

o simulacro sublime

o todo didático do texto avali(z)ado

a fábrica têxtil toda avariada

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a coisa é feita de ruídos

puídos ou recém

nascidos

doloridos ou não

não importam muito os idos

desde que bem imbricados

os ruídos

é um ofício difícil

precisa estar concentrado

até o último lance

de dados

os neurônios todos ligados

por outro lado

é extrema

mente fácil

basta estar distraído

(como dizia o leminski)

pra (ou)vir um bom ruído

a gente faz o que pode

alguma vez vai bem

na maior parte

se fode

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leve

como pluma

na penumbra

do sentido

que se atreve

insinuar

desentendido

nenhum papel

me cabe

vácuo virtual

sou breve

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leve

mais leve que uma pluma

nem um tema

que o queira

mais profundo

teorema

menos denso que a espuma

de uma onda

tenso como o grito

de uma corda

(no espaço

de um lapso)

lema algum

leva este pre

texto ao abismo

do sentido

um risco

ronda este dizer

se tornar menos que isto

traço ao infinito

do não dito

suma

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não declame poemas

nem os cante

no máximo sussurre-os

eles odeiam cordas vocais

amam somente o som

silente atravessando a mente

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em silêncio

dança

no silêncio

dança

do silêncio

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PARTE II

dizcurso

a tradição travestida

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a morte
  • no instante da morte
  • é um corte
  • e no instante do corte
  • o gosto
  • do gozo
  • no instante do gozo
          • a gosma
          • num ácido instante
          • e numenal semblante
          • como a rosa
          • aberta instantânea
          • na tênue eterna
          • névoa fragrante
          • no ar
          • a dama consorte
          • a lavar
          • e amar nossa sorte a planar
          • aspirar expirar
          • um acorde
          • da sonata espiral
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o papel do poeta é algo mudando para algo mundano que algo

do mundo

(que) algo agouro

um mal agouro do mundo

e o papel do poeta

não se encharca das tintas

não é mais amarelo que amarela com o tempo e torna

poroso e áspero

que colorem as tintas

que vão se descolorindo num sem tom descolor

que são todas as cores: branca

esbranquiçadas

retornam por todos os poros e afloram

tal qual primavera refloram

por todos os cantos colorem de todas as cores reflorem

não são mais

tintas papéis e poetas

não mais

cores e poros e algo

não sei mais

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lunar
      • subi a escada
      • decantada de ladrilhos pétreos
      • comunguei ao pé da igreja velha
      • um olhar para trás
      • a cidade nebulosa viva
      • sem alma viva que se mova
      • a esta hora desta noite
      • se movia a ouvia seu respirar vivaz
      • eu a revia idosa revivia idade
      • me movia
      • em direção ao templo queria ver em tempo
      • o que escondia densas ásperas pesadas paredes
      • dessas lisas trêmulas vacilosas mãos deslizam
      • as dobras do tecido duro frio não vaticina o vento
      • arrepio sem pensar se move rumo à quina
      • o mar revolto se revela vento revolvia olhar e via
      • olhar o mar quebrar em branco
      • silêncio ao mar
      • a voz
      • à voz volver o olhar daquela
      • alva voz tenaz olhar fugaz contemplar
      • todos os anos passados naquele ato inato
      • um estender a mão
      • um entender de fato a falta
      • vestida pelo manto escuro véu cobrindo lisos talos
      • que se deslizam aéreos pela alva tece
      • o mar medita algo
      • mar
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Amo-te demente

caridoso morrerei

remorsoso e mórbido

culpar-te-ei.

Culpar-te-ás e partirás também

ao imaterial abraço de teu rei

e escravo?

Escravo e rei não hei

de entristecer em meu sofrer

pois me darei

a ti

e a ti possuirei

como tantos, como tantos, por dever

morrerei, morreramos

pelo carma dum caudal impiedoso

e ressuscitaremos

eu pedra

e tu a flor do outro monte que um pássaro

num arco sobre as árvores

trouxe o olor

vago

dissipado pelo vento da manhã

um frescor

ainda um frescor à rocha desventurada

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era uma casa muito engraçada
        • não tinha teto não tinha nada
  • v.m.
  • aquele que não posso ser está vivendo
  • não sei o que ele quer na funda noite escura
  • daquele quarto ao fundo que sequer eu entro
  • a casa agora estranha e a amada não escuta
  • a voz daquele eu mudo que agora já não ama
  • desenvolta ela passeia e se deita em sua cama
  • e o quarto não clareia e mesmo assim enche de luz
  • este outro a possui enquanto a casa se revela
  • antiqüíssima morada de deuses que conduz
  • aquele eu cego a viver à luz de velas
  • ver sem velas ou sol imponderáveis nuances dela
  • casa sem piso oitão ou teto vizinha do infinito
  • um rociar de eternidade impregna os cômodos disformes
  • foi tudo ti culpada amada a voltear por cômodos famintos
  • de não sei quê de além amor a entristecê-la enquanto dormes
  • co’este outro e sem meu toque nos perdoe
  • luz inconsciente a lumiar o mar profundo
  • em que mergulha aquele que se diz eu
  • na busca indefinida de um mapa o mar inunda
  • cômodos e casa e tudo bóia e se perdeu
  • do eu amar e amada cômodos e casa e aquele outro
  • ainda chora o que não sinto e às vezes tem
  • (tenho certeza) amada em leito seu e amor um pouco
  • que (náufrago) não sei e luz é assim, às vezes vem...
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vela que o vento leva que o vento come
      • vela suspensa no ar e no escuro mar
      • vela que voa ao longo do horizonte
      • vela que incendeia por sobre o monte
      • vela do desatino do aventureiro
      • vela que voga a lua na noite cheia
      • vela inflada de uma lufada
      • vela inflamável no fim do olhar
      • vela que vela a luz do plenilúnio
      • vela da tua vala
      • vela velha comadre de um sino
      • vela entre deus e meus olhos
      • vela que me leva
      • vela que me lava do escuro breu
      • vela vento que passou
      • vela luz que enluou
      • vela vala de minh’alma
      • valo do meu corpo
      • morto
  •   caravela da vida
  • tênue vela ao vento
  • ao sopro do vento
  • que a voa
  • que apaga
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leite puro

leite pleno

leite amplo

divino leite

leito impuro

leito plano

leito estreito

leito profano

teus olhos são tão sol

que molhas meu sol

quando me olhas farol

que me banha de tanta luz tamanha

tanta cruz estranha

soa no meu sol uma luz tamanha

outra luz de tuas entranhas

outra luz estranha

a tua luz nua

que luze em tua rua

curva e turva e pura

via para as tuas duas luas

que me vias

vias tão estreitas que diante

de tua luz tamanha, estranha nas entranhas

são vias

lácteas de estrelas

leito de estrelas

estrada de sóis

extracto de luz

as tuas duas luas na minha rua nua

entre o teu leite e o teu leito

me deito no desamparo

no teu jeito de me deixar sol

de me deixar sou

só no descampado

desta luz tua: lua

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leite puro leito impuro

leite pleno leito plano

leite amplo leito estreito

divino leite leito profano

entre o teu leite e o teu leito

me deito no desamparo

no teu jeito de me deixar sol

de me deixar sou

só no descampado

desta luz tua: lua

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ontem nasceu narciso
  • fogo de ritos
  • narciso de amor foge
  • preso no próprio riso
  • rio de narciso
  • de mim não sei se preciso
  • frio rio de lava
  • nos lábios de narciso
      • narciso se vê na fonte
      • na fronte de todos os mitos
      • narciso se transforma
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estava tão mudo em hades
  • lodo de muro antigo
  • pelas frestas
  • pelas festas de dionísio
  • um quintal me invade!
  • tardes de narciso
  • riso de narciso
  • siso de narciso
  • ris?
  • rio calmo como a morte
  • rio forte
          • narciso se vê na fronte
          • na fonte de todos os mitos
          • narciso se transforma
slide40
era narciso
        • que falava
        • fala de narciso
        • de que falo
        • era narciso
        • entre as águas
        • sai o eco de narciso
        • pelas ondas
        • zeros se es
        • palham — zeus!
        • da lágrima
        • de narciso
        • por um tris
        • te narciso
  • narciso se vê na fonte
  • na fonte de todos os mitos
  • narciso se transforma
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josarrá

quem dera ter do mundo

o silêncio que necessitas agora

em que sentes sede de contemplar

e o teu semblante

destemido a pairar

mal recobres o que descobre ao bulir

em tais sonhos que tens teu olhar

teu olhar, teu pobre olhar

josarrá, mas

há um cheiro negro no ar

que colore os teus sonhos meninos

e redescobre a cada olhar

nos teus cantos, lugares, teu lar

que enraíza o alicerce da casa

e se espalha aos vãos de teu chão

teu piso, e sobes enfim por teus móveis

alcançando por fim teu telhado

tuas vigas de cheiro ocreado

tuas telhas de aranha que vêm que vão

não em vão tua vida emaranha

tantos casos de casa encantada

pelo vão das paredes caminham

caminham tanto e não chegam a lugar

que luares tu queres panhar

josarrá? não te notas, não queres notar

não deves, não podes voar

por teares tecidos de ar

não deves negar tuas cores

teu manto, teus tantos encantos

de uma cor que de cores te enche

solta o pranto que queres chorar e diz

josarrá, diz que o cheiro permeia o ar

que vem de tão longe e tanto tempo a jorrar

e deságua num rompante de dor

desnorteia o poente do sol que brotas

agora em teu sonhar

tua solidão, josarrá

teu amar.

slide43
de um lado o lodo da noite

do outro

outro lodo e as gramas putrefatas

vicejando

esta faixa dura e noturna

dividindo o deserto

é uma serpente sem casa

deglutindo metais

e peidando gases

vomitando vísceras

ao pasto de lama

indiferente

tu: reflexo de serpente no olho perdido

no horizonte perdido

slide44
vieste para fugir

mas encontraste buscar

e voltas encontrarás

vieste para encontrar

o que por onde passou

nunca deixou atrás

deixou este fino olor quase partido

este calor bafo

e o amargor seco na boca

este vago eco de amor quase um toque de dor

branco do seu palor grito cego de uma flor

alheia do seu compor

pobre de uma só cor

que insetos sabem de cor

slide45
foges mas deves voltar

sem nunca

sair deste norte

como nunca saíste do não

norte e não um são

sempre no mesmo lugar

sempre no agora mesmo

que o vento soprar

mesmo

que o norte voar

slide46
no entanto a um passo está o norte

no entanto um abismo de morte

desenha entre nós este corte

que o nada só o nada em acorde

transpõe esta linha este forte

apague dos olhos o norte

cale o norte da boca e ouça!

o vento do norte zunir

a sua melô dia louca

trazendo o norte pra dentro

soprando na vela rouca

slide47
norte

ensaio de morte

de onde voltamos

cada vez mais

deus ateus

cada vez mais

slide48
pelo que há de vão

infindo no seio dele

pela música que soa

nadeante no seu silêncio

pelo que ele não é

sendo nas profundezas

pelo desmarcamento

das margens esparramadas

pela marca da fluidez

no seio dos demarcados

slide49
apenas eu

sem mim

nesta cidade que me rodeia

sem outros sem si

mudos à minha volta

nesta avenida absorta em si

no seu barulho surdo

ao lençol de silêncio dos olhos

que me olham

de dentro

do meu nada

mais p'ro

fundo do negror de minha ausência

pálidas nuvens passam ignoradas

e sob plácidos lagos serenos

dorme a morte que seremos

e dentro dela

com ela comungando e a corroendo

um átimo de norte dói correndo

e salta

leve brisa raio vento

fogo do pensamento

e fura a vida da avenida

slide50
ave em fúria

gula sem nome que nos consome

comida

de nossas feridas

que nos ilumina e a cada pedra destroçada do asfalto

a cada ato ao acaso

ao cheiro de gasolina a cada passo apressado

mal sabe os homens o norte deste instante

da face de joén nos seus semblantes

do urro de prazer dos dois amantes

da flor sem haste que brotou na face

do tempo

sem depois

nem antes

agora

deste norte desnorteante

slide51
todo o vento

num momento

todo o tento

num instante

o vento

e seu ventre

aberto

entre dois semblantes

sempre dois movimentos

vendo o abismo deserto

arco precário

istmo arbitrário

centelha dissipada

de vísceras

vácuo

o nada desse buraco

esse sovaco no cerrado

olhar

fixo

de vossas vozes

ávidas de barro

e engasgadas

de catarro

esse pigarro cósmico

semi desnatado

e carcomido

de fragmentos

iaras

e suas árias

aéreas

o norte

e sua sorte

incerta

slide53
meus velhos versos de segunda

vento e pássaros relva e rio

dissolvo-me neles na esperança

na esperança como nas lembranças

em que vingo a má ventura

onde perdem-se as razões, a harmonia e a sextina

e o ritmo com as pulsações

dentro e fora

fora-se toda a fruidez

e qualquer pertencimento à entidades obscuras

que passaram a fluir

transe e embriaguez

doçura e tortura

perderam-se, perdi-os e todos se lançaram

e lancei junto com eles

a qualquer alvo

de água, de madeira ou de metal

estou à salvo, não estou

talvez... talvez...

slide54
PARTE III

o lugarejo da província

sal-dades

slide55
fala da palestrante

a mulher do senador hermenegildo de moraes

na época das frutas

abria os portões da sua casa

para que o povo

desfrutasse

da quantidade de frutas

que vocêtinha dentro daquela casa!

slide56
quando, ainda criança, me deparei com aquele livro misto de causos e exaltação dos grandes vultos morrinhenses (intelectuais, políticos, artísticos), cujo título

MORRINHOS: DE CAPELA

A CIDADE DOS POMARES

pensei significar (por um desses equívocos que só as crianças podem cometer com sua prodigiosa imaginação) :

MORRINHOS DE CAPELA: A CIDADE DOS POMARES

então algo surrealista – uma cidade travestida de capela, carregando uma carapaça/capela – emergiu do texto... foi a melhor leitura que fiz do livro, até hoje

benditos sejam erros meninos

slide57
neste livro um soneto lírio parnaso
  • florido em pleno pós-guerra
  • de guilherme xavier poeta-doutor
  • quando a língua de bilac já era dada como morta
  • e enterrada:
      • Meu coração é uma cidade antiga,
      • De casas brancas e compridos muros,
      • Com pomares amplíssimos, escuros,
      • E gente simples de feição amiga.
      • Seus habitantes não são todos puros,
      • Talvez entre eles haja alguma intriga.
      • Mas a harmonia geralmente abriga,
      • E ajunta, rindo-se, os rivais mais duros.
      • Sua alegria buliçosa e clara
      • Esconde mágoas que ninguém suspeita
      • Nem descobrir impertinente ousara.
      • E julga-se feliz, pois, sem vaidade,
      • Confunde na modéstia mais perfeita,
      • Tranqüilidade com felicidade.
slide58
é consenso considerar o parnasianismo um período literário

muito renitente no caso do brasil (vide cândido e bosi)

é preciso dizer que o parnaso foi mais [muito muito +]

algo como um estado de espírito artístico-intelectual (uma economia mental)

coisa de doutores e damas entre togas e cetins

diga-se também (na companhia de bandeira) que o parnaso

não deixou de ser uma continuação (+ contida) de seu suposto desafeto

o romantismo – que por estas bandas é muito # de seu congênere europeu

digamos então que impregnou o brasil fim de séc XIX um estado de espírito:

romântico-parnasiano

slide59
melhor que “período”, “estado de espírito” ou “economia mental”

digamos que houve uma atmosfera:

ATMOSFERA ROMÂNTICO-PARNASIANA (ARP)

uma atmosfera é espacial, um período é temporal

ela se dissipa, ele é superado

ela é mais palpável (respirável) que um estado de espírito

a ARP começou a se dissipar no brasil a partir de uma pequena explosão de luzes e ruídos, ocorrida na são paulo de 20, chamada modernismo: outra atmosfera se criava e se expandia contra as ondas bolorentas da antiga ARP

mas sua dissipação foi muito mais lenta e custosa nos rincões mais remotos do país

em plena década de 70 uma pessoa de faro mais fino podia sentir a persistência da ARP em lugares ermos como, por exemplo, na

Cidade dos Pomares!

slide60
mas

uma província tem duas bandas duas atmosferas

imbricadas

a dos doutores damas e coronéis ARP

freudiana perturbada complexo de inferioridade

inconformada por não ser centro faz de tudo

para que pelo menos em seu pequeno mundo

haja quem seja umbigo haja quem seja mudo

haja quem seja tudo haja quem nunca aja

a outra banda-atmosfera

a da gentalha analfabeta dos meninos e dos velhos

bicho mato tapera

(vide drummond ramos e barros)

toda tosca sem pertences nem complexos

ubiqüidade desumbigada

alguns a chamam sertão (mar)

essa é toda margem

slide61
e pra complicar

como estão imbricadas

uma entra na outra

de modo que a gentalha respira ARP

e togas e cetins se impregnam de sertão

nos dias de festa (de banda e discurso)

vê-se bem como o povo respira

e aspira a ARP

embora casa grande e móveis coloniais

com aquele ar de calma e fixidez

amados pelo parnaso

aquele ambiente aconchegante

só pode ser pra uns poucos

a custa do suor e do sangue de muitos

na lida dura e mal paga do campo

que a gentalha anônima têm de cumprir dia após dia

pra que a sinhazinha leia no seu aconchego

os seus romances românticos

entre móveis coloniais

e gatos perfumados

encantando os poetas parnasianos

que a chamarão de ninfa

em seus virtuosos sonetos

slide62
mas tudo tudo isto hoje

são apenas lembranças

de quem não viveu

aquela atmosfera em seu esplendor

e apenas passou menino

pela cidade dos pomares

quando restavam quase dissipados

uns cheiros de ARP

e restam ainda

umas saudades doentias de velho

daqueles móveis de jacarandá e peroba rosa

nos quais quando se fecha os olhos

vê-se ainda a donzela trêmula

de amor sem objeto

devorando seus folhetins

umas saudades que são apenas mais uns cacos

em meio aos fragmentos de agora

outra atmosfera esta

nem ARP nem sertão

nem mesmo modernista

cheia de máquinas mínimas

e cálculos enormes

slide63
benedito ventura

que (nesta vida) só foi velho e menino

afável e bonachão com aquele ar de bobão

mas só pra quem não olha nos olhos perdidos de sertão

poeta da província um pouco douto outro caipira-caipora

respirador de dois ares cheio de vícios e ofícios

tribunas e altares

mas também de sóis de luares

taperas e margens

como deixaria de ser o que é?

mestre bené

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PARTE IV

Benedito Ventura

Poeta do gran circo imperial das togas

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não chores amada mia

que choras de amarga a vida

pois saibas que a vida vinha

devindo das idas mias

até que a vida um dia

envia por não sei vias

ao pranto que tão doía

à vida que então se via

sem vida e que só temia

que amargo não cessaria

amada que amar-me-ia

pois saibas amada mia

que a dor do ir existe

pois saibas que a dor insiste

que a vida porém persiste

e saibas que amar permite

que saibas que embora triste

mui triste que o amor existe

não digas amada meiga

que o pranto quer não quer queira

despenca da ribanceira

não chores amada amiga

pois olhas e então me diga

se alguma qualquer ferida

se achou maior um dia

que um dia de alegria

na vida de amada mia

há chama alegre da vida

maior que a dor da vida

que o sol do meio dia

sabes que a dor existe eu sei

e sabes que o pranto insiste e tens

saberes que a sina é triste e bem

sabes que a dor persiste e vem

vindo demais e tensa e hei

de querer e embora não sei

da dor que existe intensa a lei

que amar de amar e de amar demais

que amar te tenho e te tenho paz

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Ora!

Tudo que quero é dizer que amo.

Só um velho como eu pode dizer tal coisa, hoje.

Amo-te

De incondicional amor intransitivo

Como o dos poetas, como tem que ser.

Como o amor dos tolos, de um se dar desmedido.

Como os profetas, cegos de amar e ver.

De um amor lascivo como o de animais,

Puro instinto e violência, sangue e gozo.

O amor do Cristo que me purificais

Límpido e eterno, cristalino, água e fogo.

Do amor que flui de dentro para fora,

De fora para dentro como o teu olhar em mim.

Do amor que fica, mesmo indo embora,

Tão dentro e forte ante a distância sem fim

Da morte ou de um simples ir

Para outro cômodo que não sei seguir.

Amo-te de um amor impossível,

De impossível exprimir.

Mas tão impossível

Que nem espremo palavras

Para vos dizer.

Quem saiba assim o diga

Neste sereno não dizer...

Amo-te de um amor menino.

Mas que redundância!

Queres coisa mais infantil

Que amar infante?

Amo-te simplesmente

Mas isto também já foi dito por muitos

(por todos os que amam)

Mas não importa para quem ama.

Se algo importasse para quem ama

não haveria amor.

Como poesia não haveria

se o poeta pensasse antes.

Se o amante pensasse antes

não haveria amante,

não haverias tu, amada e exaltada

por esta alma desarmada, desarrumada.

Nem alma, se me permita Deus, havia

se amor não houvesse.

Pois que amo-te enfim

em meio à tempestade

e em princípio é princípio meu amar

a ti e amando-te transbordar

o amor.

E amar a todos e a tudo,

a mim e amar o amor.

Amo-te como quem ama.

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noite grande da cidade

casas depois de tantas casas

luzes que tampam estrelas

postes e mais postes

teia de fios metálicos

estalando lâmpadas no ar

ruas depois de ruas

teias de ruas sem fim

deste quarto pequeninim

este magro meninim

solta a imaginação

até o mais longe desvão

mas não há desvão!

cada vão cada vale

vale um pedaço de casa

desta teia de casa até onde?desta teia que o fio se esconde

destas veias noturnas escorrem

carros roncando pra onde

sonha-se a noite que move

cada carro pros confins

asfálticos da sua pele

esta noite tem tanta invenção

luminosa ela tem tanto escurél

de noite grande

pelos morros ondula a malha de luzes

há luzes a mais depois dos morros?

morro de vontade dissolver-me

nesta idade nesta cidade nesta sede

de enredar-me nesta rede vede!

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noite grande do sertão

vede esta noite longa

larga noite profunda

vede esta noite de redes

vede esta noite de malhas

vede este céu repicado

vede o repisque de estrelas

vede este cheiro de noite

e o cheiro do galho picado

salpicado de orvalho

esta noite picadas escuras

esta cíclica noite de luas

três luas e não lua

vede esta noite sem ruas

o cheiro verde vai entranhando as narinas

a poeira não passa o vento não vem

nem vai nesta noite imóvel que nos cerca

teias de terras teias de verdes teias

de tantos galhos que se cruzam no cruzeiro

teias de quanto mistério

deste carro ou desta

tapera solta no sertão

solta o menino a sua ilusão

de ver o invisível que não sabe

o indizível que não se vê

saindo de si sobre a serrania

quantas grotas sem seu olhar

brotam agora neste instante

de noite fulgurante?

tantas formigas fervilhando

e estrelas nos olhando

estalando a nos brilhar

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noite minha pequenininha

noite contida eu sei

de cada canto seu

cada recanto de breu

ou brilho

noite pequena eu sei

só não sei porque o de todo dia toda noite

eu não sei mais noite mais íntima sei

onde acabas com as casas

onde as asas se divisam

onde as abas desta noite

só não sei porque estas beiras

me cheiram sem eira nem beira

não sei porque que te beijam

meus beiços com tanto ardor

lua cheia de quintal

encheste o meu portal

para o sem fim de mim

tão pequeninim

noite do meu morrim

tu és em cada poste cada luz

cada lua e cada estrela

cada telha cada casa

e casa-te com cada para-

lelepípedo negro de amor

que te carrega de dia

e se consome de noite no seu fulgor

abraçando-nos brincando-nos de nós

nos nós do futuro

noite o futuro é escuro

quero-te passada luz-minada

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o nariz frio do cachorro alegre
  • e um portão monstruoso
  • o muro alto
  • velho
  • verde de lodo
  • e descascado
      • cascas de árvores
      • e passeios de praças
      • bicicletas e bolas
      • bobas meninas
      • e meninos sonsos
      • e tristes
      • alegres e tristes
          • postes de luzes cinzas
          • e janelas mortas
          • e abertas
          • tortas
          • ruelas voltas
          • e voltas
          • mortas
          • e tristes
          • vilas e rodas vivas
          • e noites
          • vivas e mortas
          • manhãs
          • e tardes quentes
          • e longas
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faz frio na rua nua

frio de batê- queixo

faz cheiro de chuva molhada

vai ter pardal no fio

vai ter pinguinho nas folhas

que hoje eu sei que é orvalho

amanhã de manhã tem frio

tem cheiro de terra fresca

flor de jabuticaba

depois do aguaceiro

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tapera é uma espera

no meio do nada

no veio do dia plantada

no seio da noite rebrotada

tapera abando nada

beira de ninguém sem eira

na esteira do musgo

e do lodo na esteira

tapera na capoeira

grota de vaca fugida

greta de visco ungido

fundida no cisco

fugido pro zóio

doído de luz

que tampa a tapera

tapera uma sombra

salpicada de sol

picada de noite

no veio do dia

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jurubeba é uma biloca verde

margosa

feito fel

que levada ao céu

da boca leva a boca

ao céu

feito o amor

depois da dor

feita a vida

desfeita de uma ferida

jurubeba é um ensina

dor

jurubeba é um amar

gor

é uma esfera repleta de flor

antes e depois de flor

na embriagada língua

eufórica

sofrida

queimada de antiflor

jurubeba é um desvéu

que desvela

o amargo-doce

é um favo de fel no céu

da boca ávida

de mel

é mel tão apurado que amarga

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sou

o que lembro e o que lembro

é mandinga pr’eu ter sido

o que sonhei um dia ido

e dolorido não sei se setembro

não sei se me relembro ou a lembrança

que há de vir ao ar se insinuar

é o enchimento amanhã do esvaziar

que ficou perdido na manhã esperança

acordes pobres de pardais infância

fios de postes das catadupas ignoradas

pela alegria brincando sem nada

pensar sobre as pedras da rua sem ânsia

sobre a perda a distância medita esferográfica

sobre a mesa dos tempos idos só doridos

e sarados neste retraçar florido

de alma velha sem viço pra ginástica

ó pardais e jabuticabas bobos e bolos

cidade natal pós-modernamente em cacos

nesta cabaça podre que a guarda saco

de gatos lentos e sem unhas do desconsolo

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arrasto um punhado de pó

pelas ruas

arauto das casas desertas

e puídas

pelo silêncio e pela treva

carcomida

de luz entrante de uma fresta

(festa de meninos)

gatos conhecem-na biblicamente

entre móveis silentes calmamente

roçam pêlos nas suas entranhas

casa estranha trêmulo vácuo

arrepio de frio sob a tarde de morrinhos

quintal pomar escuro mar de podridão doce

muro de frinchas funcho e hortelã

lã estas redes de madeira teto

tateante alto de barro

piso em falso

um braço de halo

sobra do sol

que arrasto

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joaquim papudo

vagueias ruas alheias

paradas vivas

ad