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Reflexões da clínica psicológica

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Reflexões da clínica psicológica. Editorial A primeira edição. Permitir a vida, talvez, seja o mais complicado. Dar vida a uma idéia, transformá-la em ação, em concreto exige muito de nós, tempo, vontade,dedicação. Pormenor de “A criação de Adão”, Capela Sistina, Vaticano.

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Presentation Transcript
editorial a primeira edi o
EditorialA primeira edição

Permitir a vida, talvez, seja o mais complicado. Dar vida a uma idéia, transformá-la em ação, em concreto exige muito de nós, tempo, vontade,dedicação.

Pormenor de “A criação de Adão”, Capela Sistina, Vaticano

É graças ao permitir-se que podemos apresentar essa maravilhosa primeira edição de nossa revista para dividir a nossa busca pela sabedoria e vontade de melhorar sempre.

Sejam bem-vindos e aproveitem!

A EDIÇÃO

Permitir não é uma tarefa muito fácil...

Permitir-se uma escolha, uma experiência nova, um outro olhar sobre o mundo. Permitir-se mudar de opinião, ou não ter opinião nenhuma, um novo passo ou aceitar passos antigos

colaboradores
Colaboradores

Simone Francisca da Silva, responsável pelo núcleo “Novos Vínculos em Psicopatologia”

Susy de Oliveira Amorim de Campos, responsável pelo núcleo “Ética:: Instrumento para a clínica psicológica”

André LuIz, responsável pelo núcleo “Família: Modelos e Interações”

Osvaldo Antunes de Campos, responsável pelo núcleo “Experiência Profissional

Munik Antunes de Campos, responsável pela edição

sum rio
Sumário

Novos Vínculos em Psicopatologia

Reflexões sobre as práticas clínicas terapêutica............................. 5

O paciente por ele mesmo ..................................11

A leitura do trabalho terapêutico diante do desenvolvimento da criança no grupo familiar patológico........................................16

O Existir através da dor ..........................................................21

Ética: Instrumento para a clínica psicológica

A reflexão sobre ética como um subsídio para escuta e manejo clínico ...................................................................................24

A questão da liberdade na clínica psicológica........................27

A clínica psicológica como proposta de reflexão e desenvolvimento das virtudes.................................................29

Família: Modelos e Interações

FAMÍLIA: tecendo redes e construindo pontes.............................................................................32

Duas metáforas .....................................................................35

Eu vi um menino a chorar ......................................................39

Experiências Profissionais

A prática além da teoria ........................................................41

Supervisão Temática

O feminino ............................................................................46

A mulher através dos tempos .................................................49

novos v nculos em psicopatologia
Novos vínculos em Psicopatologia

O prazer de sair da sala de atendimento, o setting, e colocar a psicologia no dia-a-dia, na prática das compras de materiais escolares e didáticos para que a mãe possa ter sucesso em seus cuidados com a filha que tem dificuldade de aprendizagem por questões neurológicas. Permitir que o outro possa conquistar o mundo olhando as coisas que tem em sua volta e poder transformar esse cinza em cores vivas.

O que somos para cada paciente? Somos tantas coisas, para essas pessoas, mães, pais, intérpretes, e o que ocupamos não sabemos, somente eles podem dizer.

Veja: dar vozes e ao mesmo tempo traduzir o que as dores físicas estavam e ainda, em alguns momentos, estão falando, para aquela paciente com a qual estamos juntas há seis anos de construções e desconstruções de um sofrimento que atravessa a psique e transborda no corpo.

Essa é a relação que tenho com uma de minhas pacientes.

Esta reflexão sobre as dificuldades que experimentamos no tratamento dos pacientes com uma sintomatologia orgânica, analisando os recursos que dispomos para o exercício da função terapêutica, entende que em seu sentido mais amplo, boa terapia é a que permite o contato com o sofrimento do paciente para além do quadro sintomático.  

Reflexões sobre as práticas clínicas terapêuticas.

Falar das nossas trilhas é bem interessante e importante para ser compartilhado diretamente com a comunidade, transitando por outros lugares, fomentando reflexões e inspirando práticas. Como escrever sobre as experiências que, posso dizer, privilegiadas de tanta riqueza de detalhes e de vivências extraordinárias? É deixar o coração falar o que os ouvidos captaram dessas histórias de vida. Tarefa difícil, mas vamos lá...

Ajudar e caminhar junto com todo esse sofrimento, transformar em arte, são nossos movimentos. Vem alguém em processo de luto e transformar isso em esperanças, mudanças, vida... O que é mais interessante? Pulsar a vida.

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Novos vínculos em Psicopatologia

Caso Clínico.

Karen¹, idade vinte e oito anos, filha caçula de uma família budista, de cor negra, solteira. Filha de mãe do lar e pai músico. Essa é Karen, que vem desde os dezenove anos lutando contra Artrite Reumatóide, uma doença crônica que inflama as articulações e em alguns casos, outros órgãos são afetados. Procurou uma psicoterapia em setembro de 2004, após um período de internações, em busca do seu diagnóstico em relação ao seu sintoma.

Tudo inicia com uma simples internação no pronto socorro, ficando quatro dias em observação em estado febril, com temperaturas de 38ºC a 40º C, manchas fortemente avermelhadas e grossas sobre a pele. É assim que Karen descreve a forma que ficaram seus membros: inchados e quentes, com muita sensibilidade e dores fortes e freqüentes.

Lawrence Alma Tadema

Recebendo alta de sua primeira internação sem nenhum diagnóstico final sobre os seus sintomas, sai à procura de outros profissionais até voltar a ser internada em setembro de 2002 no Hospital Santa Marcelina, apresentando os mesmos sintomas da internação anterior, porém sofrendo vários desmaios mais freqüentes do que no inicio da doença. Nesta internação, a médica reumatologista faz seu primeiro diagnóstico provisório: Lupus Eritematoso Sistêmico (LES).

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Novos vínculos em Psicopatologia

Atualmente, Karen se movimenta com ajuda de uma cadeira de rodas, mas não consegue caminhar e nem mexer os membros superiores e inferiores. Suas pernas são hoje a cadeira de rodas, seu transporte para se locomover, porém sempre com ajuda de outros membros da família, principalmente mãe e pai.

Saindo dessa internação, os sintomas continuaram, as dores nos membros eram freqüentes, mas a paciente ainda se movimentava bem. Passou a ter acompanhamento em 2002 até 2004 no Hospital Sanatorinhos de Itapevi, onde foi diagnosticada por um novo reumatologista, como portadora de Artrite Reumatóide, diagnóstico atual e mantido até o presente momento.

Karen, antes de começar o processo terapêutico, estava em atendimento ambulatorial, com acupuntura e hidroginástica. A acupuntura com um profissional fisioterapeuta amigo da família era realizada em sua própria casa e a hidroginástica na Universidade próxima de sua residência.

O médico reumatologista que estava acompanhando o seu caso na época do ambulatório de Itapevi orienta a família de Karen a procurar uma psicoterapia. O seu quadro patológico, a artrite, não apresentava alterações e os medicamentos prescritos atuavam nas dores quando estas surgiam.

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Sempre de forma sucinta e recortada, Karen fala da luta com seu corpo, a cadeira de rodas, as dores habituais, a falta de vontade de fazer as coisas devido às dores, e o esquecimento das atividades propostas pelo fisioterapeuta.

Começamos o atendimento no espaço escolhido por Karen, seu quarto, que na época dividia com mais duas irmãs. No início éramos Karen e eu, seu guarda-roupa e sua cama, com um bom tempo da terapia em constante silêncio, um choro freqüente e a frase “Não consigo falar”. Uma de suas primeiras sessões traz a sua batalha diante da doença, fala de suas vivências na acupuntura e na hidroterapia e a vontade de voltar a andar novamente com suas próprias pernas. O tempo todo fala da dificuldade que tem para realizar os alongamentos orientados pela fisioterapia, para manter as articulações em movimento, evitando o atrofiamento dos membros: “Dói muito e às vezes, quando estou com febre, não me recordo que tenho as tarefas propostas pela fisioterapeuta para fazer...” e “a disponibilidade das outras pessoas me incomoda”.

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Sempre que fala da fisioterapia, Karen se culpa e cobra de si mesma, como uma promessa: “Preciso desempenhar-me mais nas atividades, para no final do ano voltar andar...”. Ela coloca também o incômodo com a sua situação diante da família, com a dependência do pai e da mãe e das próprias irmãs para uma água que queira beber, ir ao banheiro em suas necessidades, tomar um banho, como não consegue fazê-los sozinha, sempre dependendo de outras pessoas. Lembra também das coisas que realizava antes: ir para os lugares que desejava tomar uma bebida no momento que estava realmente com sede sem esperar a boa vontade do outro, ficar assistindo televisão até o horário que o sono chegava, sem precisar ir antes, no momento que a outra acha que deve ser. Conta que sempre tem vontade de chorar por algo que alguém falou e que não gostou, ou pela própria situação em que está, fica triste por tentar sair e não conseguir. Há sempre alguém da família reprimindo-a, não permitindo que chore, expressando palavras de ânimo e afirmações de que deve lutar e se esforçar.

Expressa as suas preocupações em falar em público, o quanto lhe incomoda. Agora isto diminuiu de certa forma, sai para lugares públicos, com amigos, parentes vai à festas, sai de casa, conversa mais com os vizinhos, mas no começo tudo era difícil e sempre que possível traz um recorte ali outro lá sobre o seu último emprego.

Há uma repressão consigo mesma diante do olhar das pessoas. Relata um fato envolvendo a família em que uma tia chegou da Alemanha de férias e Karen não gostou da forma como a tia a olhou, sentiu estar sendo olhada como uma ‘coitada’.

Em 28 de outubro de 2004, Karen traz lembranças de quando trabalhava em um escritório de advocacia, afirmando que o estresse do trabalho contribui para os sintomas que tem agora. Não gostava do que fazia e do próprio ambiente, era um atividade repetitiva, um local no qual não se sentia bem, muita pressão, cobranças, principalmente nos atendimentos de inquilinos e proprietários.

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Percebe que quando está nervosa suas juntas ficam rígidas e a intensidade da dor aumenta.

Neste encontro sua mãe contou um pouco da infância de Karen, o seu desenvolvimento nos primeiros anos de vida e a sua relação com ela ter sido tranqüila em cada fase. Karen é filha caçula, nasceu de parto cesariana dez dias antes do programado, houve complicações com a mãe, que tinha pressão alta. Com seis meses de idade teve uma gripe forte, febre e dor de garganta. Aos sente anos descobriu uma alergia a abacaxi.

A mãe relata que Karen não engatinhou e aos onze meses começou andar.

Desde o ano de 2006, Karen decidiu voltar a estudar e prestou o Prouni, processo seletivo para uma bolsa de estudo gratuita em faculdade. Está estudando Comunicação, começou a sair mais para outros lugares, faz aula de dança para cadeirantes em uma associação, além das reuniões semanais da sua religião, o Budismo, na qual atualmente é membro e responsável por um grupo.

¹O nome da paciente será preservado e utilizaremos o nome Karen para falarmos sobre o caso.

Bibliografia

Psicossoma IV(FERRAZ, FLÁVIOCASA DO PSICOLOGO

Psicossoma II(FERRAZ, FLAVIO CARVALHO / VOLICH, RUBENS MARCELO / ARANTES, MARIA AUXILIADORA DE A. C.CASA DO PSICOLOGO

Psicossoma III - Interfaces Da Psicossomatica(FERRAZ, FLAVIO CARVALHO / VOLICH, RUBENS MARCELO / RANNA, WAGNERCASA DO PSICOLOGOPsicossomatica E A Psicologia Da DorANGERAMI-CAMON, VALDEMAR AUGUSTO / VALLE, ELIZABETH RANIER MARTINS DO / SASDELLI, ERIKA NAZARETHOMSON PIONEIRA

o paciente por ele mesmo
O paciente... Por ele mesmo

Novos vínculos em Psicopatologia

Minha história de vida

Assim como qualquer outra adolescente aos 19 anos tinha uma vida normal. Trabalhava, saía com as amigas, paquerava, enfim, vivia de uma maneira tranqüila e sem grandes preocupações. Eu era uma pessoa bastante sossegada e um pouco tímida também, mas nada que comprometesse a minha vida social. Acalentava grandes sonhos e o desejo de fazer desta minha juventude uma época que eu não pudesse ter nenhum arrependimento.

Fazia três anos que eu trabalhava em um escritório de advocacia, por isso via que já estava na hora de buscar os meus objetivos. Resolvi então procurar uma qualificação profissional. Entrei num curso de informática e comecei a fazer um cursinho pré-vestibular para poder ingressar em uma faculdade. Neste ínterim eu estava à procura de um novo emprego no qual eu pudesse me desenvolver mais e ter um plano de carreira, para que eu pudesse custear os meus estudos tranqüilamente, uma vez que eu trabalhava em um escritório pequeno e sem muitas chances de um êxito profissional.

Eu estava muito contente com o que eu vinha conquistando aos poucos. Estava no caminho certo para realizar os meus objetivos.

Então, após a minha jornada de trabalho, ia direto para o cursinho e chegava tarde da noite em casa, aos sábados também após o trabalho ia para o curso de informática.

O ano de 2000 estava sendo bastante intenso para mim, mas eu estava gostando, pois via que eu estava criando a liberdade de fazer aquilo que eu queria.

Porém, foi em meio a todos esses acontecimentos que a doença se manifestou na minha vida. A princípio surgiu uma alergia na região das pernas, mas não soube a sua causa. Logo depois comecei a sentir fortes dores no joelho e nos pés, seguido de um quadro de febres altas diariamente até ficar internada por dois meses em um hospital realizando exames e sendo observada.

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Novos vínculos em Psicopatologia

Foi a pela primeira vez que fiquei internada em um hospital. No começo não foi fácil me adaptar ao ambiente hospitalar, pois nunca havia ficado longe da minha família, mas logo pude fazer amizade com companheiras de quarto, enfermeiras, funcionários e parentes das pessoas internadas. Hoje posso dizer que foi uma experiência um tanto enriquecedora.

Após esse período, recebi alta com o diagnóstico de Lupus Eritematoso Sistêmico (LES), uma doença inflamatória de causa desconhecida e que em casos crônicos leva a atrofia das mãos.

Nasci numa família budista e prático a religião desde pequena. Sempre soube que estamos sujeitos aos impasses da vida e o importante é não sermos derrotados por eles, por isso fortaleci ainda mais a minha fé. A doença não seria um obstáculo.

Comecei o tratamento e três anos depois as fortes dores nas articulações voltaram. Eu tinha muita dificuldade de andar devido ao inchaço provocado pelos remédios. Troquei de médico, realizei novos exames e descobri que na realidade eu tinha Artrite Reumatóide, não Lupus. A Artrite Reumatóide é uma doença crônica de causa também desconhecida que tem como característica inflamação articular persistente.

A essa altura, a doença estava num alto grau de inflamação, eis o grande motivo das fortes dores nas articulações e muita febre. Também surgiram alguns nódulos reumáticos em meu corpo. Tinha noites que eu não conseguia dormir de tanta dor. Não encontrava uma posição na cama que aliviasse o meu sofrimento. O diagnóstico preciso tardio levou a atrofia das minhas pernas e, conseqüentemente, a cadeira de rodas.

Logo iniciei o tratamento psicológico que me ajudou também a entender a doença e ter uma melhor qualidade de vida, ajudando-me a encarar uma nova realidade de usar uma cadeira de rodas. A terapia está sendo bastante importante neste meu processo de adaptação.

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Novos vínculos em Psicopatologia

A minha rotina diária mudou bastante. Neste momento passaram a fazer parte da minha vida acompanhamento médico, fisioterapia e terapia. Sou uma pessoa de muita fé e bastante otimista e sei que a minha melhora depende principalmente de mim, mas também sei que é muito importante aliar a minha fé à ciência.

Chegou um momento que eu vi que poderia romper os meus limites e dar continuidade a minha vida normalmente mesmo agora como cadeirante. Era hora de eu encarar os receios de estar numa cadeira de rodas e me incluir totalmente na sociedade novamente. Então, decidi reacender o sonho de cursar uma faculdade. Foi com a minha forte determinação que através do ProUni (Universidade para Todos) eu consegui uma bolsa de estudos integral no curso de Comunicação Social com habilitação em Publicidade e Propaganda em uma universidade particular

Hoje vou à faculdade de transporte especial e retorno para a casa de transporte público, muitos dos quais ainda não estão totalmente adaptados ou devidamente adequados para as pessoas com deficiência física.

Desde que iniciei a faculdade, sabia que poderia enfrentar algumas dificuldades por causa da minha mobilidade reduzida, porém determinei não ser derrotada por elas.

Psique abrindo a caixa de Afrodite, William Waterhouse

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Uma das minhas paixões também é a dança, assim como a música. Mesmo na cadeira de rodas eu pude romper mais uma vez os meus limites entrando num grupo de dança para cadeirante. Dançar é uma forma de eu poder me expressar levando às pessoas não só esta maravilhosa arte, mas de mostrar a minha alegria de viver e de que eu posso fazer muito mais, não importando a minha situação física. Certamente a dança também é uma aliada ao meu tratamento médico.

Com todas as oportunidades que estão se abrindo às pessoas com necessidades especiais pude retornar ao mercado de trabalho com todos os direitos de um trabalhador comum e sei que ainda posso alçar grandes vôos.

Não estaria sendo verdadeira se eu dissesse que tudo está sendo fácil na minha vida, muito pelo contrário. Claro que um dos meus maiores objetivos hoje é o de voltar a andar e sei que isto ainda é possível. Mas aprendi que independentemente da dificuldade de me locomover, sou capaz de fazer o que eu desejo por meio da imensa vontade que tenho de vencer qualquer obstáculo. É um exercício diário, ou seja, tenho de buscar esta força constantemente. Com perseverança e coragem eu consigo desfrutar grandes benefícios.

Então, a partir do momento em que eu tinha a escolha entre desistir ou encarar a realidade de voltar de transporte público quando eu passei a estudar à noite, a minha decisão já era certa: enfrentaria tudo o que eu tivesse de enfrentar sem jamais desistir do meu objetivo e estou vencendo as dificuldades, uma a uma. Aliás, estou cursando o meu último ano da faculdade. E muito desta minha coragem eu também devo aos meus pais que me dão apoio incondicional para eu realizar este meu objetivo. Inclusive um ou outro vai comigo à faculdade e me aguarda até o final da aula. Isto eu não tenho nem como agradecer a eles.

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Novos vínculos em Psicopatologia

Percebi que em todo este meu processo, além da religião e do tratamento médico, a presença da minha família e dos meus amigos está sendo fundamental. Fortaleci antigas amizades e cultivei novos e importantes amigos que estão convivendo comigo neste momento essencial da minha vida.

Vejo a minha vida hoje como uma fase de grandes conquistas e de grande aprimoramento pessoal e agradeço por praticar o budismo e compreender que a nossa verdadeira felicidade deve ser extraída de dentro de nós e a psicoterapia me ajuda a enxergar isto melhor ainda.

Nós somos os únicos responsáveis pela nossa felicidade ou infelicidade. Eu decidi SER FELIZ independente da situação.

Por: K.C.V.

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A leitura do trabalho terapêutico diante do desenvolvimento da criança no grupo familiar patológico.

Crianças o que são? Projetos de um adulto em escalas menores ou um ser humano no início de seu desenvolvimento? São chamadas recém-nascidas do nascimento até um mês de idade; bebê, entre o segundo e o décimo oitavo mês, e criança quando têm entre dezoito meses até oito anos de idade.

No acompanhamento clínico com crianças percebo que essa relação família-criança precisa ser melhorada. Papéis e responsabilidades são deixados pelos pais para que possam ser assumidos pela sociedade. Avós vão muito além dos mimos dados aos netos e muitas vezes, são eles o suporte afetivo e financeiro de pais e filhos. Escolas sendo exigidas a fazerem tarefas de educação básica e moral de comportamento, porque a família não tem feito isso.

Vejo nos atendimentos clínicos de adultos com problemas em suas questões infantis, que há atropelamento no conteúdo dos seus próprios filhos. É, não temos manual para poder administrar e cuidar da vida desses pequenos seres, mas temos nossas experiências para emprestar a eles, que precisam ser validadas o tempo todo pelos valores atuais ou passados pelos nossos pais e gerações.

Quando pensamos nesses conceitos de papéis dos pais, vem uma leitura também como psicoterapeuta: a relação entre normal e patológico no desenvolvimento emocional do sujeito.

É muito interessante como os sintomas de um adulto aderem perfeitamente nesses pequenos sujeitos que já no momento de 0 a 06 anos, são expectadores de fatos de funcionamento desconhecido a eles.

A questão do normal e do patológico é uma preocupação mais por parte do filósofo que do médico, este último se interessa antes de tudo em descobrir o que pode ou não fazer por seu paciente, e não em saber se o sintoma é “normal” ou “patológico”. Se essa atitude pragmática se justifica no âmbito da medicina somática, o mesmo não ocorre no campo da psiquiatria, cercado por todos os lados de problemas éticos, culturais, sociais e políticos, entre outros.

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Novos vínculos em Psicopatologia

No estudo das condutas e do equilíbrio psicoafetivo de uma criança, o normal e o patológico não devem ser considerados dois estados distintos um do outro, separados rigorosamente por uma fronteira ou por um grande fosso. Não há nada que permita julgar que existam dois campos heterogêneos, um testemunhando processos psicológicos normais, e o outro, desestruturação ou inorganização patológica. O desenvolvimento e a maturação da criança são por si mesmos fontes de conflitos que, como todos os outros, podem levar ao aparecimento de sintomas. Assim, os campos respectivos do normal e do patológico interpenetram-se em grande parte. Uma criança pode ser patologicamente normal como pode ser normalmente patológica. O patologicamente normal pode incluir estados como a hipermaturidade de filhos de pais psicóticos ou divorciados. O normalmente patológico inclui as fobias da primeira infância.

La Familia, Fernando Botero

É tão importante quanto conhecer e diagnosticar os possíveis transtornos emocionais de crianças, conhecer amplamente o seu desenvolvimento emocional normal. Em função do foco de trabalho, no caso o tratamento de crianças com algum tipo de sofrimento, nós, psicoterapeutas, podemos freqüentemente ter uma visão mais psicopatológica do desenvolvimento, em vez de uma visão de normalidade.

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Novos vínculos em Psicopatologia

Caso Clínico

Chega para o atendimento um garoto de quatro anos e meio com seus pais que querem entender o que acontece com o filho que apresenta na sua primeira convivência social o não acompanhamento de si com as outras crianças na creche. Olhar solto sem fixação para a pessoa que conversa, mundo muito particular de histórias e personagens heróicos, brincadeiras consigo mesmo sem a inclusão de nenhuma pessoa ou outra criança: esse é Vinicius¹,o garoto que veio para o espaço terapêutico.

No começo, pais bastantes presentes, uma relação de participação e abertura para o que estava acontecendo e procurando a melhoria do pequeno. Na maior parte das presenças na clínica, era o pai que acabava trazendo o menino. A mãe sempre com dificuldade de se apropriar de sua relação com o filho, pois o pai toma literalmente conta desse lugar dificultando a entrada dessa mãe. Por outro lado, a mãe foi deixando também de ficar com o filho, abrindo dessa forma a sua presença focada no trabalho. Temos então uma troca de papéis nesta família.

A criança, em suas atividades lúdicas, nunca trazia construções claras para uma criança da sua idade. Contextos sem nexos e sempre focados no mundo próprio criado com os seus heróis (Batman, Bob Esponja, Ben 10, monstros, naves, etc.). Os vínculos com as outras crianças eram bem precários, sem contato visual, sem aproximação. Como toda criança que gosta de ficar junto com outras crianças, o comportamento de agarrar e ser agarrado não existia. Havia uma repetição constante para assistir os mesmos filmes e desenhos, e por várias vezes chegou a reproduzir as falas dos personagens em seus momentos certos da cena.

A nossa relação, Vinicius e eu, foi crescendo e cada momento seu pai, que era quem mais o acompanhava nas consultas, questionava as suas condutas diante da criança, trazendo pequenos flashes de sua história pessoal. Em uma das sessões chegou a comparar a criação que estava dando para o filho com adestramento canino.

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Novos vínculos em Psicopatologia

Com alguns deslocamentos do sintoma do garoto a dinâmica foi mudando e surgiram sintomas do pai, iniciando um novo momento na psicoterapia. O adulto começa a falar de si e das questões o estão mobilizando e vêm as experiências infantis, muitas por sinal mal resolvidas.

Continuamos a relação terapêutica: o paciente já consegue fazer parte do grupo na escola, em alguns momentos surgem sinais de mania na criança em querer sempre assistir o mesmo desenho, de novo e de novo, dificuldade em ficar atento durante as tarefas ou em brincadeiras, parece não escutar quando lhe falam diretamente, não segue instruções e não termina os deveres de casa, tarefas ou obrigações, tendo dificuldades para organizar os afazeres e atividades.

A Família, Jaime Olaya

O trabalho com a família atualmente mostra que a mãe consegue quebrar com a repetição de alguns movimentos, a criança já assiste a desenhos uma única vez. Hoje o mesmo está conseguindo fazer a leitura de rótulos, propagandas, mas vem apresentando um discurso confuso em alguns momentos, com uma fala incompreensiva e acelerada.

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Novos vínculos em Psicopatologia

É preciso falar de uma criança com seu desenvolvimento comprometido e também construir nos pais a percepção desse desequilíbrio da história infantil de cada um. A cada ano venho percebendo, nos atendimentos com a criança, o quanto os pais não conseguem cuidar de detalhes e de si mesmos para poder ajudar o filho. Em certos momentos caminhamos bastante sozinhos, a criança e eu, para sensibilizar essas crianças adultas que chamamos de pai e mãe, que ficam bem distantes, supondo que o profissional ‘conserta’ e que vai entregar a esses pais um novo filho com todas as questões que os assusta resolvidas. O infantil de cada um dos genitores não suporta e não consegue cuidar da única criança que se encontra na casa, porque sua ‘criança interna’ também não foi cuidada. Então, ao invés de uma criança real, temos três crianças para cuidar.

Com toda essa construção subjetiva, o paciente vem apresentando sinais de um transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade, com quadros de desatenção permanente, irritabilidade (labilidade) de humor, pensamentos grandiosos, sua escuta (quando é chamado ainda demora atender), discurso desconexo e sem clareza. Durante o atendimento percebem-se todos esses quadros na criança que acaba sendo parecido com o pai, que também está percorrendo um caminho de construção.

Bibliografia

Transtorno De Déficit De Atenção/hiperatividadeBENCZIK, EDYLEINE BELLINE PERONICASA DO PSICÓLOGO

Manual De Psicopatologia Da InfânciaMARCELLI, D.ARTMED

Infância E PsicopatologiaCOHEN, DAVID / MARCELLI, DANIELARTMED

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Novos vínculos em Psicopatologia

O existir através da dor.

Vivemos relações de todas as formas e as pessoas vêm procurando entender e compreender o mundo em que se encontram e o que está sendo simbolizado à sua volta. Os seres humanos têm a capacidade de transformar o existir a partir do momento em que conseguem visualizar a existência de uma vida de emoções, ao saber que poder amar a si mesmo faz uma grande diferença. Para essa percepção ser validada e mantida com o ser humano, procuramos nos envolver em experiências em busca da felicidade.

O que ouvimos das pessoas é a vontade ser feliz, pois o desejo não consegue ser visto por si mesmo para ser colocado como essência. Os caminhos que se escolhe, de certa forma não são bons, trazem na história de vida sofrimento, dor, culpa, medo, preconceitos. Ficam rodeados por essas estruturas que acaba ganhando o nome de sintomas e que criam doenças. E o que temos contato no primeiro instante é com o sofrimento. Sofrer é a leitura que transparece na experiência do humano, o idioma que consegue ser verbalizado e visualizado com a dor física. Junto com o sofrimento vêm as transformações físicas que acabam se somando à alma psíquica para desequilibrar a existência. Se não entendemos o que está acontecendo dentro de nós não conseguimos escolher o desejo adequado para sermos felizes, pois a leitura está com um comprometimento orgânico que danifica as ações tomadas.

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Novos vínculos em Psicopatologia

A existência nos leva a compreender com clareza que o ser humano não é um dado feito, mas um encargo, uma tarefa de ser. O ser humano é possibilidade. Ele pode no seu ser, ou escolher-se ou conquistar-se só aparentemente. Muitas vezes estamos assustados, angustiados e até perdidos neste mundo, mas no movimento do nosso pensar é que fundamentamos o existir, pois a partir daí construímos nossa vida optando por isso ou aquilo. O homem tem a possibilidade de poder ser.

Infelizmente o Brasil é um país onde a cultura não se liga a essas coisas e a quantidade de informações veiculadas a respeito desses assuntos é muito precária por ser uma questão rodeada de preconceitos. Só que enquanto isso, existem pessoas muito doentes, pessoas que chegam ao suicídio ou até mesmo se tornam ‘um perigo a população’ somente por falta de cuidado, por falta de alguém que dissesse: “Você é importante, precisa de alguns cuidados e vamos descobrir o que está acontecendo”.

The Key, Jackson Pollock

Bibliografia

Cartas E Retratos - Uma Clinica Em Direção A ÉticaMAMEDE, MARGARIDAARAUCO EDITORA

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Novos vínculos em Psicopatologia

Indicações de livros para complemento de leitura.

Criando Meninas - Capa RosaPREUSCHOFF, GISELAFUNDAMENTO

Criando MeninosBIDDULPH, STEVEFUNDAMENTO

Múltipla EscolhaLUFT, LYARECORD

Perdas E GanhosLUFT, LYARECORD

Escrevendo Com A AlmaGOLDBERG, NATALIE / CAMPOLINO, CAMILA LOPESWMF MARTINS FONTES

Cientista Que Curou Seu Próprio Cérebro, AISIDORO, DEBORA DA SILVA GUIMARAES / TAYLOR, JILL BOLTEEDIOURO (RJ)CIÊNCIAS COGNITIVAS

tica instrumento para a cl nica psicol gica
Ética: Instrumento para a clínica psicológica

“A reflexão sobre ética como um subsídio para escuta e manejo clínico”

Após um certo tempo trabalhando com a clínica, ouvindo os pacientes(...), comecei a perceber em mim a sensação de estar vendo uma cena como a de um filme, quando eles descreviam um acontecimento em suas vidas, ora triste (na maioria das vezes), ora alegre ou até engraçado. Num filme, rimos, nos emocionamos ou tememos, dependendo da situação mostrada. No caso do paciente na clínica não há equipe de produção, equipamento ou câmeras. O foco, a fotografia da cena são os olhos e os sentimentos do paciente, e à medida que nos percebemos na cena desenhada por ele, podemos sentir o impacto, a dor, a alegria, etc. Contudo, a nós nos cabe movimentar-se, explorar os detalhes, olhar para os outros personagens da cena contada, temos que ter mobilidade, agilidade, um olhar treinado, um ouvido aguçado e acima de tudo, sensibilidade e delicadeza. E temperando tudo, racionalidade e equilíbrio.

Apesar do pouco conhecimento que tenho do trabalho de um diretor de cinema, imagino que exerça uma função parecida com a nossa numa cena descrita por nosso paciente. Nossa câmera e equipamentos são a teoria e a técnica, nela estão contidos nosso script e roteiro e fazem parte essencial da formação de um psicoterapeuta. E aí vão variar os estilos do diretor: psicanálise, behaviorismo, analíticas, etc. O bom manejo desses roteiros é fundamental e vai exigir permanente busca e estudo. Até aqui procurei fazer uma analogia entre o trabalho de um diretor de cinema e o trabalho do psicólogo e nesta empreitada se faz necessário observarmos as diferenças entre os dois profissionais. No caso do diretor, quanto mais conceituado for, mais ele disporá de condições para realizar uma grande produção. Desse modo, poderá escolher grandes atores, excelentes equipes e equipamentos de última geração, mega instalações e tudo mais que imagino ser necessário. Já no caso do psicólogo, são os “atores” que escolhem o diretor e isso faz toda diferença porque são esses mesmos atores que o lançarão em histórias, as mais variadas, únicas e inesperadas. Geralmente são do gênero drama, mas não devemos nos enganar, acontece de tudo e quando somos convidados por eles, há sempre uma expectativa que nós possamos conduzir o roteiro para um final feliz e do tipo “viveram felizes para sempre” e tudo mais. E é neste ponto que ser um bom profissional e manejar muito bem teoria e técnica não bastam, nem para o diretor de cinema e nem para o psicólogo.

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Ética: Instrumento para a clínica psicológica

Quando falei de sensibilidade e delicadeza entre outras coisas para estar na cena descrita pelo paciente, estava pensando em algo mais que conhecimento teórico-técnico, mais algo como o manejo ético das situações, pois sem isso corremos o risco de nos tornar mais um personagem que se coloca ao lado do “mocinho(a)” ou acabar lutando contra os moinhos de vento, feito Dom Quixote e seu companheiro Sancho Pança ou qualquer outro personagem mais moderno.

O estudo e a reflexão da ética nos permitem construir um olhar e uma escuta das mais refinadas, nos dando leveza e equilíbrio quando o paciente-ator do drama de sua vida nos descrever uma cena onde ele foi agredido e vituperado brutalmente, fazendo-o curvar-se de dor bem diante dos nossos olhos. Nestes momentos a impassibilidade (indiferença à dor ou aos desgostos) não é nem de longe, o que se espera do psicólogo. No caso de algumas abordagens, a neutralidade e a assertividade, muitas vezes, são revestidas dessa impassibilidade. Ao meu ver, a ética permite-nos mantermo-nos firmes diante da dor do paciente, sem nos defendermos atrás de uma frieza técnica e teoricamente justificada. A ética fará com que nos postemos ao lado dele, dentro da cena, como que segurando sua mão, assegurando-lhe nossa presença, permitindo que sinta que fomos sua testemunha.

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Ética: Instrumento para a clínica psicológica

A ética ajuda a dar um tônus diferente para o vínculo terapêutico. Aqui cabe um pequeno parêntesis para uma definição de ética que a tire da concepção que temos do senso comum, pois, chamamos de ética, qualquer atitude educada que temos. Não que civilidade não esteja incluída na dimensão da Ética, mas quero ressaltar que o que estou propondo como instrumento essencial na prática clínica, exige um conhecimento mais aprofundado dessa área do saber filosófico. Para nos situar, vejamos uma definição do que é Ética num dicionário de filosofia: “No sentido próprio, ética é uma disciplina filosófica cujo objeto são os juízos de apreciação quando se aplicam à distinção do bem e do mal. Teoria geralmente vinculada a uma busca metafísica, distingue-se da moral aplicada”. A partir desta definição, é possível termos uma idéia da amplitude e da complexidade do objeto da ética, pois o bem e o mal são as duas faces do humano e a liberdade é que equilibra as duas, por isso a importância da ética para o trabalho clínico.

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Ética: Instrumento para a clínica psicológica

“A questão da liberdade na clínica psicológica”

Ao parar para refletir sobre a questão da liberdade na clínica, o que me vem à mente são as determinações impostas pelos sintomas, sejam físicos ou psicológicos, os impulsos que nos obrigam a “atuar”, os sentimentos que insistem em se esgueirar e aos poucos nos lançam nos estados de ansiedade e tristezas profundas, sem que consigamos dizer: “pare” ou “já chega!”. Em algumas abordagens recorreremos às técnicas para de algum modo tentar retomar o controle dos sentimentos, dos sintomas, dos impulsos, por conseguinte, o controle da nossa existência. E isso nos coloca de frente com um paradoxo que marca nossa dinâmica psíquica: de um lado uma ilusão primitiva de onipotência e de outro, um sentimento real de fracasso, impotência e desamparo, podendo acrescentar ainda, a oposição entre o princípio do prazer e o princípio da realidade que regem nosso psiquismo. Só nos resta, então, a opção de lidar com essa oposição, visto que ela está no centro desse psiquismo. Somos livres e determinados ao mesmo tempo.

O nosso corpo determina que devemos suprir suas necessidades, a sociedade nos determina com certas regras, leis e normas que cumprimos como hábitos que se instalam sem percebermos, etc. Fica difícil diante disso tudo apreendermos de que maneira podemos ser livres e questionar se de fato podemos sê-lo. Não decidimos simplesmente não comer nunca mais, mas podemos escolher o que comer ou comer o que tiver ao nosso alcance caso não tenhamos tantas opções. Não escolhemos não sentir frio, mas podemos buscar recursos e formas de nos abrigar e agasalhar da melhor maneira que conseguirmos. Enfim, entre a determinação e a liberdade tem um espaço para a nossa “escolha”. Penso que é justamente nesse espaço que se instalam os sintomas e que comprometem até aquilo que é determinado biofisiológicamente, como o alimentar-se citado acima. Na anorexia e na bulimia, por exemplo, uma imagem irreal de nosso corpo e de nós mesmos, nos impede de comer adequada e equilibradamente, há uma distorção que não nos permite “escolher”. O sintoma coloca o sujeito numa relação senhor - escravo, privando-o de sua liberdade.

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Ética: Instrumento para a clínica psicológica

Na clínica psicológica realizamos o trabalho quase artesanal de devolver ao sujeito sua liberdade. Para isso temos que situá-lo nas contingências do real, nos limites do corpo, da realidade do mundo e das relações com o outro, tudo o mais que sobra é “liberdade”. Ser livre para escolher-se, para experimentar-se, para compreender-se, que, aliás, está na base de todas as outras possibilidades.

Não posso impedir de ser afetado pelas as outras pessoas e pela realidade, mas posso entender, perceber de que maneira isso acontece comigo e então, depois dessa compreensão posso escolher o que fazer a respeito de como tudo isso me afeta. É um trabalho minucioso, árduo e que exige do psicólogo que ele próprio já tenha experimentado essa liberdade. Até mesmo nossas “prisões” precisam ser conhecidas para que alguma liberdade possa ser vivida. A nós caberá decidir sempre de que maneira transitaremos nas selas que o real nos impõe. A linguagem é a chave que permite abrir as grades ou no mínimo ampliar a sela. Poder traduzir os sintomas através dos símbolos nos ajuda a exercer nossa liberdade. O psicólogo pode funcionar como um intérprete da linguagem e então, revelar esse significado ao “prisioneiro”.

Contudo é preciso tomar cuidado com o ideal do controle do comportamento proposto por muitas interpretações da Psicologia. Freud aponta que o neurótico não é livre, pois se acha dominado por forças inconscientes e a superação vem através da análise. Desse modo, podemos pensar que ultrapassar a si mesmo é uma dimensão da liberdade, nascemos homem, mulher, brasileiro, isso constitui o que já somos. Podemos ser livres para escolher como seremos esse homem, mulher ou brasileiro. A liberdade não é uma dádiva, mas é resultado de uma árdua tarefa, algo a ser conquistado. Não é a ausência de obstáculos, mas o desenvolvimento da capacidade de superá-los e o psicólogo pode estar neste lugar de capacitador e ajudador.

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Ética: Instrumento para a clínica psicológica

“A clínica psicológica como proposta de reflexão e desenvolvimento das virtudes”

Na clínica psicológica, ao menos na forma como a concebo, acabamos por exercer certas funções que competem às primeiras figuras parentais. Isso ocorre pela neurose de transferência, onde são projetadas e/ou revividas certas experiências das mais primitivas até as mais rasas, vivenciadas pelo paciente em seu cotidiano, nos vínculos mais ou menos significativos. Isso significa que acabamos por ocupar temporariamente lugares que antes pertenceram aos pais e educadores de nossos pacientes nos primórdios de sua constituição psíquica. E a partir dessa constatação é que proponho pensarmos nos desenvolvimento das “virtudes” no dizer da filosofia ou na clarificação de alguns aspectos inconscientes visando um fortalecimento do ego no dizer psicanalítico.

Concordo com o autor André Comte-Sponville na apresentação do seu livro: “Pequeno Tratado das Grandes Virtudes”, que estou lendo no momento:

Das virtudes quase não se fala mais. Isso não significa que não precisemos mais delas, nem nos autoriza a renunciar a elas. É melhor ensinar as virtudes, dizia Spinoza, do que condenar os vícios. É melhor a alegria do que a tristeza, melhor a admiração do que o desprezo, melhor o exemplo do que a vergonha. Não se trata de dar lições de moral, mas de ajudar cada um a se tornar seu próprio mestre, como convém, e seu único juiz. Com que objetivo? Para ser mais humano, mais forte, mais doce. Virtude é poder, é excelência, é exigência. As virtudes são nossos valores morais, mas encarnados, tanto quanto pudermos, mas vividos, mas em ato. Sempre singulares, como cada um de nós, sempre plurais, como as fraquezas que elas combatem ou corrigem. Não há bem em si: o bem não existe, está por ser feito, é o que chamamos virtudes. Foram elas que tomei aqui por objeto: da polidez ao amor, dezoito capítulos sobre essas virtudes que nos faltam (mas não de todo, senão como poderíamos pensá-las?) e que nos iluminam.

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Ética: Instrumento para a clínica psicológica

Quero partir desta última colocação do autor: “Não há bem em si: o bem não existe, está por ser feito, é o que chamamos virtudes”. Me ocupo e proponho pensar: como é que participamos da construção desse bem na clínica com nosso paciente? Também neste ponto concordo com o autor, que se a virtude pode ser ensinada é mais pelo exemplo do que pelos livros, e de certo modo é o exemplo que podemos usar com o paciente, no sentido de que em nossa presença e através dela é que ensinaremos as virtudes, então proponho que caminhemos com o autor, seguindo-o nas virtudes discutidas por ele mas a partir da minha experiência clínica, refletindo no que aprendi e no que ensinei juntamente com meus pacientes. Vejamos alguns pontos:

  • A virtude de um ser é o que constitui seu valor, sua excelência própria;
  • As virtudes são independentes do uso que se faz delas, como do fim a que visam ou servem;
  • A razão não basta ao homem, também é necessário o desejo, a educação, o hábito, a memória, toda virtude é histórica como toda a humanidade, e ambas no homem virtuoso, sempre coincidem: a virtude de um homem é o que o faz humano;
  • A virtude ocorre, no cruzamento da hominização (como fato biológico) e da humanização (como exigência cultural) é nossa maneira de ser e de agir humanamente, isto é, nossa capacidade de agir bem;
  • A virtude supõe um desejo de humanidade, desejo evidentemente histórico (não há virtude natural), sem o qual qualquer moral seria impossível. Trata-se de não ser indigno do que a humanidade fez de si, e de nós;
  • A virtude é uma disposição adquirida de fazer o bem, porém ela é o próprio bem em espírito e em verdade;
  • O bem não é para se contemplar é para se fazer.
  • Eis alguns pontos citados por Sponville, que acredito serem essenciais para iniciar uma reflexão sobre as virtudes no trabalho clínico do psicólogo.
bibliografia geral

Ética: Instrumento para a clínica psicológica

Bibliografia geral
  • ARANHA, Maria Lúcia de Arruda. Filosofando: Introdução à Filosofia. São Paulo, Moderna, 1994.
  • CHAUI, Marilena. Convite à Filosofia. São Paulo, Ática, 2006.
  • Comte-Sponville. André. Pequeno Tratado das Grandes Virtudes. São Paulo, Martins Fontes,1995
  • VAZQUEZ, Adolfo Sanchez. Ética. São Paulo, Civilização Brasileira, 1992.
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Família: Modelos e interações

FAMÍLIA: TECENDO REDES E CONSTRUINDO PONTES.

Conforme a proposta inicial de nosso trabalho, o objetivo deste é valorizar nossa atuação na clínica e conseqüentemente, repensar a teoria. Embora não seja terapeuta familiar, sempre convido a família e/ou rede social do cliente para a orientação psicoterapêutica, geralmente quando estes são crianças ou adolescentes.

Esta postura me fornece uma possibilidade ímpar de trabalho, pois o conteúdo observado no espaço terapêutico é trabalhado de maneira coletiva e relacional, incluindo todos os membros da família, delimitando a cada um destes suas responsabilidades, pois passam a se enxergar como co-responsáveis pela relação. É válido lembrar que em alguns casos um dos responsáveis não se conforma com a estada do filho(a) em um processo psicoterapêutico, transferindo para este(a) toda responsabilidade para o seu infortúnio.

Sendo assim, alguns pontos norteiam esta orientação, são eles:

  • Tornar real a fala do cliente; em vários momentos o cliente não tem sua opinião respeitada, sendo necessário uma intervenção neste sentido;
  • Apresentar à família uma nova maneira de rever seus conceitos (maneira dialógica), ou seja, a fala (comunicação) como transformadora da realidade;
  • Falar aos familiares que existem maneiras diferentes de resolver seus dilemas, não existindo o certo ou errado, mas sim uma opinião diferente;
  • Em alguns casos, “emprestar” a subjetividade para o cliente;
  • Construir com estes, novas possibilidades na relação.
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Família: Modelos e interações

O fomento para a orientação dos pais ou responsáveis é sempre discutido com o cliente, para que no passo seguinte surja o trabalho com a família. Este por sua vez ocorre sempre de maneira lúdica, pois desta forma os “adultos” se sentem mais à vontade, possibilitando uma maior (re)visão de seus conteúdos.

Geralmente, estas têm o foco na relação, pois acredito que se fecundas são facilitadores para o desenvolvimento individual.

Da entrevista inicial até a alta, o cliente é o foco da relação terapêutica, sua presença é indispensável em todos os momentos, podendo este me autorizar a falar em sua ausência.

A Família de Tarsila do Amaral

Caso:

A mãe de V. procura a Associação, falando que este em um momento de fúria queria matar o cachorro da família, pois queria seu vídeo game de volta.

Em um encontro com a família e utilizando um jogo colaborativo, todos os filhos puderam falar de seus medos de uma maneira tranqüila. Em uma das perguntas (Em caso de incêndio, o que cada membro de sua família iria retirar da casa?). A responsável pelas respostas (irmã mais velha) falou: Mamãe iria retirar todos, V., o cachorro, I., a bicicleta e papai o computador. Depois de uma breve pausa, todos responderam: É o COMPUTADOR e sorriram. Após minhas considerações todos puderam refletir o porquê da resposta. E esta foi muito significativa para todos.

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Família: Modelos e interações

A partir deste momento ocorreu uma movimentação na relação familiar.

Para os pais de A. a orientação se deu de maneira diferente. Nesta sempre comparecem: o pai, a mãe, a irmã e o cunhado. Ao término de uma sessão, onde o pai chorou muito, pois admitia a maneira indiferente com que tratava a filha, foi necessário respeito, mas não indiferença no momento. Pude falar que A. estava crescendo e que deveria se comportar e assumir responsabilidade como tal, ou seja, sair de casa com documentos, dinheiro da passagem e asseado. Houve um espanto geral, como se não soubessem!

É preciso, no entanto ter a sensibilidade para saber se este tipo de orientação é realizável. Em algumas famílias não é possível tal prática, por falta de habilidade do terapeuta ou disponibilidade afetiva dos membros.

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Família: Modelos e interações

DUAS METÁFORAS

Quero compartilhar com vocês uma convicção que norteia minha atuação como psicólogo, de que não sei absolutamente nada sobre a história de meus clientes e para se trabalhar com família, este não saber deve ser uma constante.

Dois episódios contribuíram para a reflexão sobre esta lauda. A sabê-los: o primeiro foi a fala de uma diretora. Ao visitar a escola de K., devido ao grande número de reclamações fui presenteado com esta máxima:

“O grande problema desta menina é que ela não tem família” sic.

Não consegui disfarçar minha contrariedade e imediatamente respondi:

“Ela possui família, tem uma mãe e uma irmã”.

“Ela não tem uma família normal” sic.

“Existe alguma família patológica?”, Retruquei.

Depois conseguimos desenvolver uma boa conversa. Nesta, pude falar do desprezo por parte dos professores e o bullying que a paciente sofria, inclusive por parte de um professor que passou a tratá-la com a alcunha de ‘bolacha meio a meio’, pois K. tem vitiligo.

Rosa Meditativa, Salvador Dalí (1958)

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Família: Modelos e interações

A certo momento, pede licença uma professora. A diretora imediatamente pede para esta falar-nos sobre o comportamento de K:

“Uma ótima aluna, não tenho problemas com ela, suas notas são boas. É um pouco agitada e como a maioria dos professores não interfere na dinâmica da aula, ela resolve o problema de sua maneira”.

“Que maneira?”, perguntei.

“Quando os meninos ficam encarnando-a ninguém faz nada, então ela parte para cima e resolve o problema, entende?”

“Ela bate nos meninos?” Perguntei.

“Isto mesmo, de maneira geral é uma ótima aluna”. Em seguida trata do seu assunto, pede licença e se retira. Não ousei em falar mais nada.

Outro episódio foi uma conversa que tive com uma amiga, esta me afirmou que sua cliente não evoluía no atendimento, pois “sua família é desestruturada”, mas não houve tempo de terminarmos nossa conversa.

Se solicitarmos a um determinado número de pessoas para que definam família, teremos com certeza o número de respostas diferentes igual ao número de pessoas entrevistadas. Pois cada um de nós tem experiências que fundamentam nossa definição.

Portanto, todas as representações sobre família estão corretas, não são melhores, nem piores, são diferentes.

A família apresentada na grande mídia (jornais, revistas, internet e televisão) destoa da realidade, pois esta nos brinda com um grande número de famílias: homoparentais, patriarcais, matriarcais, famílias onde os avós são os responsáveis e muitas outras.

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Família: Modelos e interações

A família de Carla* tinha uma regra muito clara e definida para os seus filhos. A., J. e M. não podiam falar ou manifestar qualquer tipo de brincadeira com conteúdo violento, pois o esposo de Carla e pai das crianças cometera o suicídio na porta de casa, quando ouviu a sirene da policia. Portanto falar sobre este assunto era um tabu.

Iniciamos nosso trabalho com J. que era colocado como aquele que caminhava em sentido contrário aos demais. Quando este sinalizava que tinha direito a uma opinião e de manifestá-la, mas quando o fazia chocava a todos. J. tinha boas lembranças do pai, colocava este como ‘vencedor onde ele estiver’. Passei a convidar os irmãos e rede social, para participar das sessões a cada 45 dias, onde observava a dinâmica dos três, e ao término ocorria a orientação da mãe.

Mas sempre J. era o estorvo, o que me fez marcar uma sessão com Carla para falar destra impressão, o que fez com que ela começasse a deixar de idealizar seus filhos. Para isto utilizamos um exemplo prático: Carla no café da manhã procurava realizar o desejo de cada um. Expliquei que afetivamente poderia fazer a mesma coisa, ou seja, que observasse cada um e procurasse dar o que cada um necessitasse. Posteriormente me informou que trabalhou esta questão em terapia.

Depois deste dia, J. passou a solicitar mais vezes a presença dos irmãos nas sessões, e nestas, cada um elaborava seus conteúdos, podiam brincar com armas, matar um ao outro. Até o dia em que estourou o filme Tropa de elite e em uma sessão J. fez a seguinte pergunta: “André você assistiu o filme Tropa de Elite?” Respondi que sim. “Tem palavrão pra c..., né?”.

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Família: Modelos e interações

A. e M. arregalaram os olhos. Quando repeti a mesma frase, tem palavrão pra c... A. por sua vez repetiu e logo em seguida M. J. sempre mais ousado começou a falar vários e, cada palavrão um show de risadas e, mais importante, sem medo. Naquele momento puderam perceber que estavam escrevendo um novo capítulo relacional e de fato a dinâmica, inclusive com a mãe, mudou. A violência deixou de ser assunto proibido para ser assunto discutido. Na própria relação surgiu o fortalecimento de cada um.

O que e trás a segunda metáfora.

A família é como grãos de areia em uma ampulheta que com o passar do tempo nunca estão no mesmo lugar. Esta constante movimentação faz com que surjam na própria família possibilidades terapêuticas. Pois se é na relação entre seus membros que surgem os problemas, na mesma relação pode se construir e reconstruir uma nova realidade, onde todos assumem seus papeis e suas responsabilidades entre estes o próprio psicólogo. Este deve ter em mente que as palavras e definições dos clientes reverberam na sua própria historia, e urge distinguir uma das outras.

Quando isto ocorre o psicólogo atua como agente da transformação, mas esta é de responsabilidade de cada um. Embora o agente também saia impactado pelo processo.

* nome fictício

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Família: Modelos e interações

Eu vi um menino a chorar

Outro dia, descendo uma ladeira no caminho para minha casa, vi um menino a chorar. Esta cena me impactou, causo-me um turbilhão de sentimentos, inundou meu intimo com minhas lágrimas, muitas lágrimas, lagrimas que como pássaros pousam nestas linhas. Lágrimas de alegria, de tristeza, de dor, de amor. Lágrimas que me tornaram melhor, mais saboroso, mais sensível, mais humano. É possível tornar um humano mais humano?

Muito rápido pensei no porquê das lágrimas. O que elas estão comunicando, o que estão falando? As lágrimas por si mesmas são apenas lágrimas, mas com o tempero das experiências ganham um significado.

Que sentido tem uma lágrima? Qual o seu peso? Um grama ou muitos quilogramas? Socialmente representam fraquezas, humanamente alívio, e, permitindo-me plagiar o poeta: “chorar é privilégio dos maduros”.

Logo em seguida ao me aproximar do menino, um novo significado ganharam aquelas lágrimas (as dele), talvez de desamparo.

Pense bem! É melhor apanhar do seu pai, do que apanhar dos outros... Da policia. (sic-mulher)

Neste momento novos personagens surgem: o pai e psicólogo.

Provavelmente, aquele menino fez algo não aconselhável, e muitas perguntas vieram à tona. O que ele fez? O que quis dizer com o ato em si? Que recursos afetivos têm os envolvidos? Que possibilidades psicoterapêuticas existem?

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Família: Modelos e interações

Que histórias tem esta família? Que tipo de violência sofrera? E este pai? Será que em algum momento este foi acolhido? Foi abraçado por seu pai? Certa feita ouvi de um senhor: “fui criado na enxada e ela também vai ser...” Isto mostra que em vários momentos o agressor se vinga naqueles que anseiam o nosso afeto, nosso carinho, nosso amor, pois precisa delegar para o outro sua infelicidade. Tive vontade de abraçar aquele jovem, e junto poder refletir que caminho, ou caminhos, poderia seguir, poder ouvi-lo. Lembrei das minhas filhas, de nossas conversas, nossas risadas, nossas manifestações de carinho.

Reconhecer e validar a história e experiência do outro se faz necessário.

Como seres humanos, temos o hábito de nos sensibilizar com os mais fracos, como profissionais devemos acreditar que todos têm o direito deste suporte, agressores e agredidos, abusado e abusadores, violentos e suas vitimas; pois para que algo aconteça o terreno deve ser fértil.

Fico a pensar nas inúmeras possibilidades existentes, nos vários caminhos a percorrer com um único propósito: auxiliar o outro na reconfiguração de sua vida.

De várias hipóteses e questionamentos, apenas um fato... Eu vi um menino a chorar.

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EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS

A PRÁTICA ALÉM DA TEORIA

INTRODUÇÃO.

Muito se tem falado que não há mais grandes pensadores, nem grandes estadistas, nem criadores e muito menos inventores, ou simplesmente homens inteligentes, que desenvolvam grandes e novas teorias, ou criem novas práticas, formulem leis em relação à física, ou a química, medicina, ou em relação às ciências ou as ciências humanas, e quando nos pomos a pensar a respeito, parece que esses homens ficaram nos séculos passados. É como se toda ação tivesse sido desenvolvida nos séculos anteriores e de lá para cá só ficaram as teorias que os grandes homens do passado deixaram.

Em relação a tudo isso, muitos de nós podemos dizer: “Mas nos séculos passados havia necessidades que obrigavam aqueles homens a buscarem e descobrirem novas práticas, pois o mundo como conhecemos hoje, não existia naqueles séculos. Foram esses grandes homens do passado que ajudaram a construí-lo dessa forma, com as suas inteligências, seus inventos, com as suas criações e com as suas postulações.”

Podemos concordar ou não com tudo isso, mas uma coisa é certa: ainda hoje há necessidades que buscamos suprir, não com novos inventos ou criações, mas com práticas baseadas nas teorias resultantes das práticas desenvolvidas pelos grandes homens do passado. E para qualquer criação ou invenção do presente, devemos citar e nos basearmos nas teorias deixadas, e todos os trabalhos têm de ser baseados nessas teorias como se o atual trabalho fosse, nada mais, nada menos, que um ramo ou uma extensão de tudo o que antes, de um modo geral, foi colocado à disposição da humanidade.

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EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS

Ao pensar nessa fórmula de com é desenvolvido o trabalho nos nossos cotidianos, podemos ver nitidamente não há criação de novos saberes, mas sim a justificativa e/ou a validação, ou ainda a ratificação de saberes que já existem. Em outras palavras, quando desenvolvemos algum trabalho é como se buscássemos testemunhas para justificar ou ratificar o que estamos postulando. É como se precisássemos do aval deles em tudo para que o nosso trabalho seja reconhecido e aceito.

Eu sei que não é isso, mas se pararmos para pensar, é essa a impressão que vamos ter.

E nesse sentido vamos entrar em outro pensamento bem semelhante aos que foram discutidos até aqui: o pensamento da teoria e da prática. Os debates entre teoria e prática são infindáveis. Os defensores da prática alegam que a teoria é pouco efetiva, uma vez que sua aplicação é sujeita a condições específicas e particulares. Por outro lado, aqueles que defendem a teoria alegam que os conceitos são as verdadeiras fontes do saber e do conhecimento. Muitos escritores as consideram como duas faces da mesma moeda, e chegamos a crer que não existe uma prática sem uma teoria que a defina. Isso aprendemos nas nossas casas de ensino, mas também muitos escritores defendem a tese de que o professor tem como missão principal não o ensinar uma teoria ou uma prática ou as duas juntas, mas ensinar o aluno a pensar, e nesse sentido os professores encontrados ao longo da nossa trajetória acadêmica (não todos), na grande maioria das oportunidades, nos desautorizavam a tentar de uma forma diferente da teoria ou da prática já existente, e acabavam, com isso, nos tornando reféns da maneira pré existente. Mas ao nos depararmos com o outro e suas necessidades, muitas vezes não encontramos nada escrito a respeito daquelas necessidades e temos que criar uma prática, não a partir da teoria, mas sim a partir da necessidade do sujeito, e é isso que pretendo relatar em relação a minha prática enquanto professor de autistas.

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EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS

Caso:

Em meu primeiro dia de aula, encontrei um garotinho de aproximadamente 9 anos, grande para a sua idade, juntamente com a mãe. Era também o primeiro dia dele naquele horário, pois ele já ficava na parte da manhã com uma outra professora, também psicóloga. Pensei: mudança de horário, de professor, implica mudança de rotina e, conseqüentemente, crise para uma criança autista. A direção da escola, junto com coordenadoria, decidiu deixar a mãe na sala de aula para que a criança não sentisse muito a mudança na rotina. Percebi algumas feridas e marcas no rosto e braços do menino. Perguntei para mãe o que era e a mãe me explicou que ele não suportava o toque de pessoas estranhas e logo que era tocado, ele se beliscava até que o local tocado sangrasse e que ele tinha marcas por todo o corpo. No rosto era quando alguém o beijava.

Tentei interagir, mas ele parecia não me enxergar, porém aos poucos foi me notando e me aceitando. Eu disse à mãe que ela poderia sair, fiquei com ele e correu tudo bem naquele dia. No dia seguinte a mãe estava na sala quando cheguei, e parecia que fazia tudo para que ele não me aceitasse, chegou até tirar um celular e dar para o menino. Ele brincou um pouco com o aparelho e devolveu para mãe, veio perto de mim para ver o que eu estava fazendo, e a mãe se retirou.

No terceiro dia a mãe estava tentando fazer com ele se levantasse do chão quando cheguei, então, derramei uma caixa de brinquedos e me deitei perto dos brinquedos. Ele olhou e logo se levantou, veio e deitou ao meu lado começando a brincar. A mãe se retirou.

Nos dias que se sucederam a mãe não entrou mais na sala e demos continuidade no trabalho, ainda de aproximação. Ele já não se beliscava quando eu o tocava, porém dava muitas pancadas na própria cabeça e emitia um som bem agudo. Aos poucos, consegui com que ele parasse de se estapear. Também ficava bastante curioso quando eu o imitava emitindo o mesmo som que ele fazia, ele olhava para mim e ria (ele não falava).

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EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS

Considerações finais:

Tudo que foi realizado com o aluno saiu das nossas interações, pois nunca li nada a respeito de como trabalhar com autismo, embora tivesse o conhecimento de como se dá o autismo e cheguei até a participar de um curso na AMA (Associação de Amigos do Autista). Na oportunidade pude falar da evolução da criança, mas tudo que eu relatava a professora não acreditava, pois dizia que não se conseguia evolução daquela forma que eu estava descrevendo nem nas escolas deles, que seguiam o método Montessori.

Aqui volto a falar da prática verso teoria, pois naquela instituição o único saber autorizado é o saber das teorias institucionalizadas com pouco ou nenhum espaço para novas tentativas, como foi feito, porém se ser apoiado em saberes pré-existentes.

Depois de algum tempo com ele, comecei as tentativas de integrá-lo com os outros alunos da escola, também com necessidades especiais. Comecei a levá-lo para participar das aulas, e logo ele começou a participar, querendo fazer as tarefas destinadas aos outros alunos, construindo bloquinhos de anotação, perfurando com a máquina, e passando o espiral pelos furos. Além disso, começamos a escrever com as letras de plástico o nome dele e o meu, e todos os dias quando chegávamos na sala ele escrevia os dois nomes. Nas demais tarefas ele desenhava uma figura grande e uma menor e tentava desenhar óculos na figura maior (figuras essas que identificamos como sendo nós dois), depois ele pintava essas figuras e fazia tudo isso sozinho (no principio queria me usar como ferramenta querendo que eu movimentasse a mão dele para a pintura).

Após três semestres juntos todos notavam a evolução da criança, inclusive participando de atividades externas, saindo para lanchonetes, supermercados e andando pelas ruas.

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EXPERIÊNCIAS PROFISSIONAIS

Não quero dizer que devemos desprezar todas as teorias já existentes, ou ignorar autores já consagrados e que já tiveram seus trabalhos reconhecidos pela sociedade, quero sim dizer que é possível criar novos saberes através de pesquisas desenvolvidas a partir da própria prática, descobrindo assim novas teorias que não teriam como “testemunhas” os autores do passado. Seria mais ou menos como no principio: a teoria sendo escrita a partir da prática.

Autor:

Osvaldo Antunes de Campos

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Supervisão temática

SUPERVISÃO TEMÁTICA - CONSULTÓRIO

TEMA: O FEMININO – JUNHO/09

Este texto se refere ao que foi discutido em junho de 2009, no encontro de Supervisão Temática, cuja temática foi: “O Feminino”, realizada por Susy de Oliveira Amorim de Campos na perspectiva da Psicologia e Munik Antunes de Campos trazendo esta temática a partir da moda dos séculos passados.

ALGUNS CONCEITOS – PSICANÁLISE

“Uma mulher espera mais substância de sua mãe do que de seu pai, ele vindo em segundo.” (J. Lacan, O Aturdito – Paris, 1973)

“ Para toda mulher, há sempre três mulheres: ela menina, sua mãe e a mãe da mãe.” (D.W. Winnicott, Conversações – Londres, 1987)

  • A história particular que cada menina escreve com sua mãe, ao longo de sua infância e adolescência, costuma deixar na filha uma indiferenciação em face da mãe em aspectos que tocam à sua identificação própria como mulher.

- A questão edípica – “O registro instituído pela intervenção simbólica do pai na relação mãe-criança deixa tanto na menina quanto no menino uma mesma marca – uma identificação viril com o pai – o destino dessa marca não será o mesmo num e noutro caso. Para o menino, a identificação masculina recebida do pai é, em princípio, resolutiva de ser Édipo porque marca sua separação com a mãe. Não é o caso da menina, para quem a identificação masculina, embora necessária em termos estruturais, não resolve sua questão identificatória. Ela ainda terá, à saída do Édipo, de continuar a procurar uma identificação feminina; esta, só poderá encontrar junto à mãe, mulher como ela. Com isso o processo edípico, no caso da menina, deixa um resto na condição de separação com a mãe.” (Zalcberg, Malvine: 2003 p.15)

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Supervisão temática

- Por isso a pergunta feita por Freud numa carta escrita a Marie Bonaparte onde exprime sua perplexidade diante do insondável mistério que a mulher representa para ele: “ A grande pergunta para a qual não encontro resposta apesar dos meus trinta anos de estudo da alma feminina é a seguinte: o que quer a mulher?” (idem, p:24)

- Coloca ainda mais tarde: “ Os senhores agora já estão preparados para saber que também a psicologia é incapaz de solucionar o enigma da feminilidade (...). Se desejarem saber mais a respeito da feminilidade, indaguem da própria experiência de vida dos senhores, ou dirijam-se aos poetas, ou aguardem até que a ciência possa dar-lhes informações mais profundas e mais coerentes. A sexualidade feminina continua um continente negro (desconhecido).

- “Mãe e filha são momentos identificatórios no processo interminável do “tornar-se mulher” e não cristalizações da completude narcísica com a qual sonhamos (...). As identidades de mãe e filha não podem aspirar à perfeição, pos é na falha de uma e outra que a condição feminina se enriquece, se renova e se reinaugura a cada novo tempo do viver. Sem mãe e filha não existe a “mulher”; onde só existe mãe e filha, também não” (Jurandir F.Costa, idem: contracapa)

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Supervisão temática

Alguns conceitos – visão junguiana

 ”O arquétipo é o fundamento do complexo materno que na psicopatologia mais antiga reconhece a mãe como parte ativa no aparecimento de problemas e distúbios.”

Deméter e Medeia - A maternidade é uma experiência primária que lança as bases de toda existência psíquica futura – na condição de mãe ou de filho.

 Deméter- deusa das colheitas, ícone de um instinto materno que não tem sossego. Mãe de Perséfone que é raptada por Hades (deus dos mortos e dos subterrâneos) enquanto colhe flores. Procura em vão pela filha por nove dias e noites, descobre a traição (pai da filha Zeus que é seu irmão). Vinga-se impedindo que a Terra de seus frutos para extinguir a raça humana. Sua dor só ameniza quando cuida do filho do rei de Ática como mortal. Descoberta sua identidade é lançada novamente à sua dor. Zeus intima Hades a devolver-lhe a filha, com tamanha alegria da mãe a Terra volta a dar seus frutos. Quando ela volta para o marido nascem o outono e o inverno, sobre a Terra reinarão frio e penúria.

Medéia – “Ela engana o pai e o irmão para ajudar Jasão a reconquistar o velocino de ouro e foge com ele. Mas Jasão a abandona por Creusa. Enganada e louca de ressentimento, ela mata a rival e sacrifica os filhos que teve com Jasão. Sua história é um conjunto de elementos passionais: amor, ciúme, traição e vingança”.

Bibliografia

ZALCBERG, Malvine. A relação mãe e filha, Rio de Janeiro, Elsevier, 2003.

Revista: Mente e Cérebro – Edição Especial: As Faces do Feminino. Nº 18 – Ediouro, São Paulo.

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A mulher através dos tempos

A mulher na antiguidade era tratada como um objeto, cujo dono era o pai e posteriormente o marido. As mulheres não participavam da vida social de suas culturas e eram criadas desde pequenas para saber desenvolver o papel que lhes cabia (cuidar da casa, gerar os filhos, etc...). E justamente pelo fato da mulher não ser muito mais importante que um escravo, por exemplo, quase não há registros documentais sobre a vida da mulher, suas atividades, etc... Porém existem registros que podem pelo menos nos dar a luz sobre alguns assuntos relacionados ao feminino na antiguidade, ainda que as representações da mulher encontradas nesses registros sejam apenas a visão que o homem tinha dela e não o que ela era na verdade.

Apesar de todas as limitações impostas à mulher, ainda no mundo antigo ela conseguiu se destacar como, por exemplo, a mulher-faraó Hatshepsut que governou o Egito em uma de suas eras mais prósperas, de 1479 a 1458 a.C, e além de seus feitos arquitetônicos, teve a ousadia de se retratar como homem, talvez para demonstrar ser tão capaz de governar quanto um homem, talvez para afrontar aqueles que eram contra seu reinado, ou por qualquer outro motivo que se perdeu com os anos.

Já na idade média, a situação da mulher continuava em posição inferior a dos homens, porém, agora, sob a visão dos clérigos, as mulheres, que descendiam de Eva, a responsável pela saída do homem do paraíso, eram criaturas pecadoras e más por natureza. Depois do século XI, os papéis de esposa e mãe passaram a ser exaltados como forma de controlar e regenerar a natureza pecadora da mulher. Caberia ao marido “domar” a mulher, dando-lhe uma vida honrada e casta. Portanto, a mulher só teria algum “valor” quando estava totalmente submetida ao julgamento, padrões e regras masculinas: deveriam ser virgens ou esposas e mães, cuidando da casa e dos filhos.

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Essa inferiorização da figura feminina se dava pelo desconhecimento do universo feminino. A mulher era um mistério, portanto era inferiorizada e muitas vezes temida como fonte de tentação do diabo e desencadeadora do pecado. As roupas refletiam esse papel da mulher, pois se pode observar que a mulher era vestida com metros e metros de tecido, muitas vezes para esconder as partes que poderiam “incitar o pecado”. A mulher e seu corpo eram vistos como algo profano e misterioso, o que era atraente.

No Renascimento, com o surgimento da burguesia, a mulher expandiu seu papel, tomando parte de assuntos como filosofia e artes, e até mesmo suas obrigações, mudando um pouco o seu lugar de mãe e dona de casa para ser também parceira do marido, ajudando-o em seus negócios. A prosperidade da burguesia e o sistema capitalista na sociedade ocidental, foram alguns fatores que desencadearam o surgimento da Moda. A burguesia queria ser nobre, ter prestígio e passou assim a imitar os modos da nobreza de se vestir. E a nobreza assim passou a buscar formas de se distinguir dos plebeus que agora tinham dinheiro para imitar seu vestuário. Surgiu assim um dos mecanismos da Moda: a distinção, a vontade de aparentar outra coisa e de se diferenciar para ser reconhecido como diferente ou melhor.

Rainha Hatshepsut, 18ª Dinastia

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Com o surgimento de novas doutrinas em oposição a Igreja católica podemos observar uma mulher que se destacou: a rainha da Inglaterra, Elisabete I. Uma mulher notável que aboliu a religião católica na Inglaterra em sua época em favor do protestantismo. Nunca se casou, não teve filhos, porém transformou a Inglaterra numa potência mundial e restaurou o orgulho nacional que havia se perdido.

  • É curioso observar que até mesmo uma mulher destemida e “fora dos padrões” normais para uma mulher do século, podia se curvar, em nome da vaidade o do que fosse a moda vigente, como pode se observar nos quadros em que retratada usando as cada vez mais exageradas golas (rufos) e as pesadas e desconfortáveis “farthingales”, anágua semelhante a crinolina, armada por arcos de arame, madeira ou barbatanas de baleia que ficavam maiores na barra.
  • A mulher e sua roupa se tornavam uma atração, um tributo a ostentação e exibição da beleza feminina. Desde essa época já se observa uma mulher refém não da Moda, mas da vaidade em si, refém de uma sociedade patriarcal onde a mulher se vestia e se arrumava como um objeto de orgulho e desejo masculino. No século XVI, por exemplo, tem-se noticia de que Elisabeth Bàthory, condessa húngara, tenha matado entre 40 e 600 mulheres jovens para se banhar em seu sangue, pois acreditava que assim manteria sua juventude.

No século XVII, ainda que a mulher fosse vista como inferior, ela conquistou um espaço maior na sociedade que veio crescendo desde o renascimento. A mulher tinha acesso a livros e ao conhecimento e de fato começou até buscar mais o conhecimento de diversas formas. Não era elegante uma mulher ser ignorante, ela deveria conhecer poesia, literatura, filosofia, porém tudo com um certo limite. Elas deveriam ter acesso ao conhecimento apropriado para elas e nada mais do que o básico.

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Aqui novamente observa-se a ousadia da mulher se aventurando e se “intrometendo” em áreas antes dominadas pelo sexo masculino. Maria Sibylle Merian, por exemplo, se dedicou no século XVII, a estudar os insetos, publicou livros, se separou do marido (coisa bastante incomum para a época) e viajou estudando e pintando as espécies que encontrou, tudo isso numa época em que ciência era uma área estritamente masculina.

Já no século XVIII, a mulher torna-se mais consciente de sua situação desigual perante aos homens. Principalmente após a Revolução Industrial (1789), a mulher que era exposta a condições e horários de trabalho extremamente abusivos (e recebendo menos do que o sexo oposto), começou a se posicionar e reivindicar.

De acordo com pensadores iluministas como Rousseau, a mulher, que possuía uma razão menos complexa que a do homem, era incapaz de enxergar o mundo além das questões domésticas e portanto incapaz de praticar as “ciências exatas”. Segundo ele a mulher não saiu da infância. Este século então é marcado por uma pequena evolução no papel da mulher no sentido de que esta agora era considerada cidadã, embora não fosse “capaz” de entender de assuntos como política. Era uma cidadã por causa de seu papel como esposa e mãe e tudo que a mulher deveria saber e estudar seria somente para atender a esses fins. Ou seja, tudo que a mulher fizesse teria de ser em função do homem.

Rainha Elizabeth, século XVI. Retrato exposto na Galeria Nacional de Londres.

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A Moda refletia mais uma vez a tentativa de reprimir e conter a mulher que agora se interessava mais pelas leituras como filosofia, ciências e outras coisas que fugiam do mundo doméstico.

A mulher do século XX, mesmo que ainda houvesse regras repressoras de qualquer conduta que o homem não considerasse apropriada, passou a buscar mais seu espaço e sua voz dentro da sociedade. Coco Chanel teve um papel muito importante nessa mudança da mulher, já que um dos primeiros passos para que a mulher alcançasse maiores horizontes seria criar uma moda mais confortável e portanto mais de acordo com a mulher do século XX. Chanel era um perfeito exemplo dessa nova mulher que agora tinha personalidade, trabalhava e mais do que isso, era bem-sucedida.

A mulher, por mais que ainda enfrentasse o preconceito silencioso, começou a passar dos limites impostos por uma sociedade historicamente machista para alçar novos vôos e enfrentar novas batalhas e obter novas conquistas.

Bibliografia

Jones, Sue Jenkyn – Fashion Design – O manual do estilista

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