O corti o 1890 alu sio azevedo
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O CORTIÇO (1890) ALUÍSIO AZEVEDO PowerPoint PPT Presentation


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O CORTIÇO (1890) ALUÍSIO AZEVEDO. Émile Zola: O ROMANCE EXPERIMENTAL. Aluísio soube contrastar a animalidade instintiva e impulsiva do cortiço-povo com a hipocrisia e a futilidade das famílias de comerciantes bem sucedidos, instaladas no polo do sobrado-burguesia .

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O CORTIÇO (1890) ALUÍSIO AZEVEDO

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Presentation Transcript


O corti o 1890 alu sio azevedo

O CORTIÇO (1890) ALUÍSIO AZEVEDO


Mile zola o romance experimental

Émile Zola: O ROMANCE EXPERIMENTAL

Aluísio soube contrastar a animalidade instintiva e impulsiva do cortiço-povo com a hipocrisia e a futilidade das famílias de comerciantes bem sucedidos, instaladas no polo do sobrado-burguesia.

Focaliza, sobretudo, as relações entre o português, explorador do Brasil e obcecado pelo enriquecimento, e o brasileiro, apresentado como povo fácil de ser explorado, desde que se lhe lubrifiquem as molas da sensualidade.

Na preparação do romance, Aluísio adotou astécnicas de observação e experimentaçãopropostas por Émile Zola. Segundo Raimundo de Meneses, um dos primeiros biógrafos do autor, quando se preparava para escrever O cortiço, o escritor:

frequentava estalagens, ia às pedreiras, familiarizava-se com cavouqueiros, comia em casas de pasto, à mesa ruidosa dos trabalhadores, conversava com eles, estudava-lhes os tipos, os costumes, a linguagem, surpreendia-lhes os instintos, ria com eles à larga, ou retraía-se, comovido, quando os via acabrunhados. Saía cedo e ia à faina. Regressava à noite, cansado, aborrecido, atirava à mesa, a sua grande e desordenada mesa de trabalho, as notas que tomava, despia-se às pressas e corria ao banheiro para tirar de si o cheiro do suor honrado.


O corti o 1890 alu sio azevedo

  • Nessas visitas, recolhia material lingüístico que servisse para fixar os hábitos e comportamentos sociais das figuras que viviam nesses ambientes. O Rio de Janeiro de então, apesar da beleza natural, estava longe de ser a Cidade Maravilhosa, tão cantada em prosa e verso. Construir habitações coletivas tornou-se um negócio bastante lucrativo na época, pois havia enorme carência de moradias. Caracterizadas por alta densidade domiciliar, transformaram-se em verdadeiras aglomerações, pois, ao mesmo tempo em que cresciam, apresentavam acentuada deterioração nas condições de higiene. A infra-estrutura sanitária urbana era precaríssima; o lixo acumulava-se nas ruas, o abastecimento de água e a rede de esgotos praticamente inexistiam.

  • O ritual da lavagem da roupa consumia horas de trabalho, trazendo enorme desgaste físico para as mulheres que tinham este ofício. Esfregando com as mãos as roupas sujas, no fim do dia, elas sentiam muitas dores no corpo e tinham as mãos queimadas pelas cinzas utilizadas na barrela e lixívia, necessárias para tirar a sujeira e clarear a roupa. Após ferver a água, por cerca de duas horas e meia, deixava-se tudo de molho até o dia seguinte. A seguir, a roupa era esfregada e batida; as peças brancas ainda tinham que ser aniladas, postas nos quaradouros, enxaguadas, estendidas nos muros, nos jiraus e nos telhados de zinco das casas, torcidas e engomadas. Braços nus, mãos calejadas, pele queimada pelo sol, as lavadeiras passavam a jornada ao ar livre, esquentando as refeições nos mesmos fogões em que se fervia a roupa. Cada peça levava a marca do seu dono. Ali, valia o ditado "roupa batida, roupa cantada", porque era "destino das lavadeiras lavar cantando".


O corti o 1890 alu sio azevedo

  • Esses cortiços foram totalmente destruídos na reforma conhecida como "bota-abaixo“; essa reforma aconteceu no início do século XX e mudou a fisionomia arquitetônica da cidade. Vários sobrados, embora decadentes, resistem ainda.

  • Os romances propriamente naturalistas denunciaram problemas como promiscuidade, miséria, fome, exploração e prostituição. Seus protagonistas vão degradando-se, social e moralmente, por força da opressão social e econômica ou pelo determinismo das leis naturais.


Mile zola o romance experimental1

Émile Zola: O ROMANCE EXPERIMENTAL

O romance experimental é uma consequência da evolução científica do século.

O desenvolvimento das personagens e das situações do romance deveria resultar, para os naturalistas, de critérios científicos similares às experiências de laboratório, de tal maneira que o método do cientista deveria tornar-se o do escritor. Assim, a realidade deveria ser descrita de maneira objetiva, por mais sórdidos que pudessem parecer alguns relatos.

Os escritores naturalistas procuraram a verdade, observando fatos e comportamentos da época contemporânea, desdenhando o sentimentalismo. Dirigiram seu interesse, sobretudo, para as camadas mais baixas da sociedade, enfatizando a naturalidade de expressão desses grupos sociais.


Mile zola o romance experimental2

Émile Zola: O ROMANCE EXPERIMENTAL

  • Incorporaram o pensamento de Auguste Comte (1798-1857), que em seu Curso de Filosofia Positiva (1830-42) configura uma espécie de "filosofia do progresso" - o Positivismo -, em que demonstra a evolução social desdobrando-se em três estágios sucessivos, cada qual superior ao que o antecedeu: Assim, a história dos homens partiu de uma fase inicial "teológica"; evoluiu depois para a "metafísica", chegando finalmente à "positiva", a mais elevada, porque se fundamentaria na ciência. Não admitiam nada que tivesse um significado sobrenatural, rejeitando as explicações fornecidas pela religião. Seguiram essa orientação, aplicando-a na composição do enredo, no tratamento da ação e na construção das personagens.

  • Charles Darwin (1809-92), em sua famosa Origem das espécies por seleção natural (1859), elaborou a teoria do Evolucionismo, em queafirma a sobrevivência, na natureza, só de organismos capazes de dar uma resposta positiva aos problemas gerados pelo ambiente(formosa "luta pela vida").

  • Os naturalistas partem do princípio de que o ser humano é um animal guiado pela raça, pelo meio físico-social e pelo momento histórico: forças irreprimíveis sobre as quais ele não teria controle. Demonstram acentuada preferência por temas de patologia social, como miséria, criminalidade, desequilíbrios psíquicos, ninfomania, homossexualidade, incesto etc.


O enredo a estalagem de jo o rom o

O ENREDO - A estalagem de João Romão

  • Logo de início, traça-se um paralelo entre o comportamento dos portugueses João Romão e Miranda, ambos negociantes maquiavélicos e inescrupulosos, que se tornam proprietários, respectivamente, de um cortiço e de um sobrado, constituindo-se a trajetória deles nas principais linhas de ação que compõem o enredo do romance, habilidosamente engendrado por Aluísio Azevedo. No cortiço, morava a "gentalha", constituída por brancos, tanto brasileiros como imigrantes, ao lado de pretos e mulatos; no sobrado, acomodava-se a família de Miranda. A propósito: o substantivo masculino sobrado tem origem no termo latino superatus, que significa "o que está por cima".

  • João Romão, que se tornaria dono do cortiço, começara como empregado de um vendeiro, também português que, enriquecido, volta para seu país e transfere o negócio para seu funcionário, em pagamento de salários acumulados. Reunindo todas as más qualidades de um ser humano obcecado por ganhar dinheiro, o novo proprietário amplia suas atividades ao apoderar-se das economias de Bertoleza, uma escrava, que se tornara sua companheira e a quem ele descaradamente engana, forjando uma cartade alforria. Crendo-se livre, ela passa os dias fritando um peixe chamado "carapicu", nome que se torna apelido do cortiço - que João Romão vende no estabelecimento, logo transformado em armazém, casa de pasto (restaurante), café e loja de ferragens. Assim, o português foi juntando capitalpara construir, casinha a casinha, a "Estalagem São Romão". Para edificar as casinhas, João Romão não hesitou em surrupiar materiais de construção em obras próximas. Logo alugadas para lavadeiras, proporcionam-lhes bons rendimentos, que se somam aos lucros da venda e lhe permitem adquirir e explorar uma pedreira situada ao fundo do cortiço, onde os operários também vão morar. Desse modo, João Romão consolida rapidamente uma fortuna considerável.


O sobrado do miranda

O sobrado do Miranda

  • João Romão quis ampliar suas propriedades, mas Miranda não aceita vender parte da dele, desgostoso por ter um cortiço como vizinho. Bufando, reclamava:

    "Maldito seja aquele vendeiro de todos os diabos! Fazer-me um cortiço debaixo das janelas! ... Estragou-me a casa, o malvado!" Na verdade, o que sentia era inveja, por não ter tido ele a idéia do negócio. Antigo comerciário, Miranda enriquecera ao casar-se com Estela. Graças ao dote da esposa, tornou-se atacadista de tecidos e acumulou fortuna e prestígio, ostentando a posse de um sobrado patriarcal. Além da família, constituída pela mulher Estela e pela filha Zulmira, viviam no sobrado alguns agregados; Henrique, um estudante interiorano; Valentim, um empregado da loja; e Botelho, um velho parasita. A mudança para a nova residência também impediria que sua esposa continuasse tendo encontros amorosos com os caixeiros da loja. Irritado, não podia separar-se dela, pois fora com o capital da família da esposa que adquirira sua loja de tecidos. Mesmo roendo os chifres, não hesitava em procurar Estela para satisfazer necessidades sexuais. Para compensar frustrações, Miranda reivindica e obtém, junto à coroa portuguesa, o título de Barão do Freixal, atenuante para seu despeito frente ao sucesso do vizinho João Romão.


Os moradores do corti o

Os moradores do cortiço

No cortiço, habitavam os mais diversos tipos:

Leandra (a "Machona''), com os filhos Ana das Dores, Neném e Agostinho; o policial Alexandre, que, quando não estava fardado, era um inveterado farrista; com a farda, desconhecia a própria mulher, Augusta "Carne-Mole". Juju, filha desse casal, vivia no centro da cidade com a madrinha Léonie, uma prostituta francesa muito solicitada por velhos políticos e por estudantes incautos. As roupas finas da cocotte eram lavadas por Isabel, que se dedicava à criação da filha, Pombinha, a "flor do cortiço". Esta aguardava ansiosamente sua primeira menstruação, para que pudesse casar-se com o comerciário José da Costa. A lavadeira Leocádia trai o marido Bruno, que era ferreiro, com o estudante Henrique, em troca de um coelho. Enfurecido, o marido a expulsa de casa. Malandra esperta, Leocádia desdenha da nova situação, achando que poderia sobreviver como ama-de-leite. Arruína-se e acaba aceitando o convite do marido para voltar a viver com ele. Marciana, mulata séria, sempre a arrumar a casa, obcecada por limpeza, era mãe de Florinda, morena de "beiços sensuais", muito cobiçada no cortiço. Quando Florinda é seduzida pelo caixeiro Domingos e fica grávida, a mãe, furiosa, vai tomarsatisfação com João Romão, patrão do rapaz. O português aproveita a ocasião para se livrar do empregado, ludibriando-o. Florinda, de tanto ser castigada, decide fugir e passa a colecionar amantes. Desgostosa com tudo, a mãe morre. Albino, uma das figuras mais excêntricas daquele espaço, era lavadeiro: de tanto conviver entre as mulheres, identificava-se com elas. Para manter seu perfil de elegância "feminina", quase não comia e isso lhe fazia mal. Libório, velho sovina, vivia sempre a mendigar comida e beijos. Sem que os outros moradores soubessem, acumulara enorme quantidade de dinheiro, escondendo-o em garrafas. Havia também locatários italianos, que costumavam sujar o terraço com as cascas das muitas frutas chupadas. Tudo o que acontecia no cortiço era público, pois o exíguo espaço físico das casinhas não permitia maiores privacidades.


O argent rio sem escr pulos

O argentário sem escrúpulos

Apesar dos obstáculos criados por Miranda, João Romão consegue construir as casinhas e acaba dono de um negócio muito lucrativo, pois, comercialmente, o ponto era magnífico, já que ficava perto da pedreira e de uma fábrica de massas. Com a administração de seus múltiplos negócios, o português passa a ganhar cada vez mais dinheiro. Para ampliar a produção da pedreira, Romão decide contratar Jerônimo, outro imigrante português, casado com Piedade. Esse casal tinha uma filha, Senhorinha. Jerônimo, um cavouqueiro hercúleo, sabia dominar a pedra, pesar a pólvora e lascar o fogo, sem desperdiçar nenhuma peça. Trabalhador experiente, exige de João Romão um salário de 80 mil réis, que o patrão aceita pagar, intuindo que boa parte desse dinheiro lhe retomaria ao bolso, pois cresceria o lucro resultante de melhor aproveitamento da pedreira.


Rita baiana a mulata dengosa

Rita Baiana, a mulata dengosa

A mulata Rita Baiana, também lavadeira, estava sempre metida com homens, dando vazão a seu temperamento alegre e impetuoso. De vez em quando, sumia; quando retomava, estava endinheirada e dizia que tinha andado em rega-bofe por Jacarepaguá. Com seu extraordinário magnetismo sensual, costumava dar festas em sua casa, em que bebiam parati, que servia de abrideira para a moqueca baiana. Numa dessas festas, Firmo, ao cavaquinho, e Porfiro, ao violão, começam uma roda de samba fazendo ferver a casa de Rita. Firmo, amante de Rita, era um capoeirista ágil, trapaceiro e charlatão pernóstico, que não aparentava a idade que tinha: 30 anos; "mulato pachola", não conseguia dissimular o ciúme, pois notava o quanto Rita era cobiçada. A festa se estendia para o pátio, deixando quase todos os homens do cortiço, especialmente o português Jerônimo, fascinados com os requebros luxuriosos de Rita, que saía sapateando, acompanhando o ritmo da música crioula na sua crepitação venenosa e lasciva. Esse chorado baiano, frenético e lúbrico, agitava a carne de Rita, cujos peitos tremulavam dentro da blusa. Com os olhos virados e os braços sobre a nuca, Rita deixava as axilas povoarem de afrodisia a roda toda. Jerônimo fica caído pela mulata, achando nela a síntese dos trópicos, do sumo da fruta selvagem, da picada da cobra, da baunilha, do açúcar, da pimenta-malagueta e do sol que faz febre, cuja luz o deixara inebriado ao chegar ao Brasil.


Jer nimo o portugu s que se abrasileirou

Jerônimo, o português que se abrasileirou

O pacato Jerônimo vivia com a esposa Piedade. A filha Marianita, depois cognominada Senhorinha, estudava em um internato. Para matar saudades da terra distante, tocava fados e canções na guitarra. Quando passa a viver realmente a vida do cortiço, Jerônimo progressivamente vai se abrasileirando. Abandona a guitarra portuguesa e começa a se divertir com o chorado brasileiro, acompanhado entusiasticamente pelo violão de Firmo. O mulato nota o interesse de Jerônimo por Rita e puxa briga com o português, ferindo-o a golpes de navalha, para desespero de João Romão, que não queria saber' de médicos nem de polícia intrometendo-se em seus negócios. Enquanto Jerônimo é levado para um hospital, Firmo foge para o "Cabeça de Gato", um cortiço próximo. Eventualmente, torna a se encontrar com Rita na casa de um padre, que alugava quartos para esses eventos. Quando Jerônimo retoma do hospital, Rita é toda dedicação. Piedade percebe o interesse do maridopela dançarina brasileira, na mesma proporção em que se vê rejeitada por ele, que declara não suportar o cheiro azedo da portuguesa, porque ela não costumava tomar banho. Jerônimo, afinal, se recupera e monta um plano para matar o rival. Ajudado por outros homens, faz com que Firmo seja atraído até uma praia deserta, onde o mulato é assassinado. Piedade e Rita Baiana, em luta aberta por Jerônimo, esbofeteiam-se, desfiando reciprocamente um variado repertório de xingamentos. Jerônimo abandona a esposa e vai viver com a mulata; sua "garra" de imigrante se dissipa e ele renuncia a todos os sonhos e ambições. Por fim, adere completamente ao modo de vida brasileiro, num processocrescente de degradação física e moral. Piedade entra em depressão e se torna alcoólatra. A filha, Senhorinha, passa a viver com a mãe, desde que o pai deixou de pagar as mensalidades do colégio interno. Numa alta noite, desconsolada, vê a mãe, muito bêbada, entregar-se a Pataca, comparsa de Jerônimo no assassinato de Firmo.


O corti o 1890 alu sio azevedo

(FUVEST – 2011) Considere o seguinte excerto de O cortiço, de Aluísio Azevedo, e responda ao que se pede.

(...) desde que Jerônimo propendeu para ela, fascinando-a com a sua tranquila seriedade de animal bom e forte, o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração, e Rita preferiu no europeu o macho de raça superior. O cavouqueiro, pelo seu lado, cedendo às imposições mesológicas, enfarava a esposa, sua congênere, e queria a mulata, porque a mulata era o prazer, a volúpia, era o fruto dourado e acre destes sertões americanos, onde a alma de Jerônimo aprendeu lascívias de macaco e onde seu corpo porejou o cheiro sensual dos bodes.

Tendo em vista as orientações doutrinárias que predominam na composição de O cortiço, identifique e explique aquela que se manifesta no trecho a e a que se manifesta no trecho b, a seguir:

  • a) “o sangue da mestiça reclamou os seus direitos de apuração”.

  • b) “cedendo às imposições mesológicas”.

    me.so.lo.gi.a - sf (meso2+logo2+ia1) Ciência que trata da relação entre os organismos e o meio em que estes vivem.


O corti o 1890 alu sio azevedo

  • a) O comportamento humano é dirigido, entre outros fatores, pela natureza, que se manifesta, aqui, na força que o componente racial exerce sobre o indivíduo. Aliado a esse princípio está o impulso da mulata Rita Baiana em aprimorar a raça relacionando-se com um homem branco.

  • b) Manifesta-se, no trecho em foco, a visão naturalista, que dava destaque à influência exercida pelo ambiente (mesologia), entendida como uma das forças irreprimíveis sobre as quais os indivíduos não tinham controle. Jerônimo representa o imigrante português cujas atitudes são condicionadas pela relação com o meio: seu desejo por Rita Baiana, concebida como uma espécie de síntese dos trópicos, faz com que ele se enfastie da esposa Piedade, “sua congênere”, e seja impulsionado a consumar a traição.

    me.so.lo.gi.a - sf (meso+logo+ia) Ciência que trata da relação entre os organismos e do meio em que estes vivem.


O inc ndio do corti o

O incêndio do cortiço

A memorável briga entre Jerônimo e Firmo teve vários desdobramentos. O capoeira, ralado de ciúmes, aboletara-se na estalagem vizinha, tornando-se o chefe daquela "gentalha". Desde logo, surgiu uma rivalidade sangüínea entre os dois cortiços: quem fosse "Cabeça de Gato" era inimigo dos "Carapicus". Quando Firmo morre assassinado, os moradores do "Cabeça­de-Gato" revoltam-se e decidem atacar o "Carapicu". Arma-se um pandemônio generalizado, maior ainda porque a polícia resolve intervir. Quando o portão do cortiço é aberto estrondosamente, ouvem-se gritos vindos de dentro: "Não entra a polícia! Agüenta! Agüenta!". Esqueceram-se de tudo, para formar barricadas e impedir a entrada dos praças. Voavam pelo ar garrafas, telhas, pedras e tintas sujas. "Fora os morcegos! Fora! Fora!", os gritos misturavam-se aos apitos, que silvavam de forma estridente no meio da rua. Aproveitando-se da confusão, Paula, a Bruxa, finalmente consegue incendiar o cortiço, após uma frustrada tentativa anterior. Ao sinal de "Fogo!",os inimigos esquecem a briga e se solidarizam, tentando salvar os poucos cacarecos. Nesse instante, o vento norte zuniu e um grande pé-d'água apagou o fogo. A batalha entre os dois cortiços, interrompida pelo incêndio, descrita com habilidade por Aluísio Azevedo, é considerada uma das mais fortes cenas de movimentação coletiva da Literatura Brasileira.


L onie e pombinha

Léonie e Pombinha

Pombinha fora criada numa redoma social, tendo recebido boa educação e adquirido bons costumes. Com a mãe, Isabel, fora morar no cortiço após a morte do pai. Benquista por todos, alternava préstimos de enfermeira e redatora/leitora de cartas para os moradores analfabetos. Corrompe-a o contato com a madrinha Léonie: a prostituta francesa dá vazão a seu lesbianismo e seduz a donzela. No dia seguinte a este encontro, Pombinha experimenta sua primeira menstruação. Agora mulher, ela já pode se casar com José da Costa. Após algum tempo, enfastia-se do marido e o abandona. Vai viver com Léonie, torna-se prostituta e passa a cortejar Senhorinha, filha de Jerônimo e Piedade.


A avenida s o rom o

A Avenida São Romão

Com o dinheiro da indenização dos prejuízos causados pelo incêndio, paga pelo seguro, e com o roubo das economias do velho Libório, que morrera queimado, João Romão decide construir a "Avenida São Romão": quatrocentos cômodos em forma de sobrados, equipados com sanitários e destinados a um novo público, formado por funcionários públicos e pequenos comerciantes. Enquanto isso, Romão morre de inveja de Miranda, pois é convidado para a festa em que o vizinho iria receber o título de barão. Para não ficar para trás na hierarquia nobiliárquica, planeja tornar-se visconde. Decide melhorar de vida e passa a assinar jornais, a ir ao teatro, a comprar roupas elegantes, a usar guardanapos, guarda-chuva, cartola, a tomar banho e perfumar-se. Torna-se sócio de um clube de danças, abandonando para sempre os tamancos. Botelho, o agregado da casa de Miranda, mediante compensação financeira, transforma-se em seu alcoviteiro, estimulando João Romão a se aproximar de Zulmira, filha do ex-rival, o que completaria seu projeto de ascensão social. Para isso, era necessário livrar-se de Bertoleza, que se tornara um enorme entrave. A preta compreende o estratagema montado por Romão e pelo assecla Botelho e, magoada com a canalhice do companheiro, chama-o às falas:

Você está muito enganado, seu João, se cuida que se casa e me atira à toa!

exclamou ela. (...) Pois se aos cães velhos não se enxotam, por que me hão

de pôr fora desta casa, em que meti muito suor do meu rosto? .. Quer casar,

espere então que eu feche primeiro os olhos. Não seja ingrato. (cap. XXI, pp. 151-152)13


O abolicionista jo o rom o

O “abolicionista” João Romão

Sempre ajudado por Botelho, o cínico argentário leva adiante o plano de descarte definitivoda escrava que se julgava liberta: localizam o herdeiro de seu antigo proprietário, já falecido, e ele a denuncia à polícia como foragida. Quando se vê diante do verdadeiro dono, ávido por resgatá-la, a ex-amante percebe o ludíbrio de que fora vítima. Desesperada, Bertoleza comete suicídio, rasgando o ventre com a mesma faca usada para limpar peixes. Ironicamente, enquanto nos fundos da casa ocorre essa tragédia, João Romão recebe na sala do magnífico sobrado em que então vivia, construído para sobrepujar o de Miranda, uma comissão de abolicionistas de casaca, que lhe entregam, cerimoniosamente, o diploma de sócio beneméritopor sua participação na campanha em favor da libertação dos escravos.


An lise da obra

ANÁLISE DA OBRA

A narrativa naturalista, para fazer uma vigorosa análise social de grupos humanos marginalizados, procura valorizar os movimentos coletivos. No caso de O Cortiço, essa proposta vem explicitada no próprio título, sugerindo a tese de que a principal personagem do romance não é nem João Romão, nem Bertoleza, nem Rita Baiana, mas o próprio cortiço. Essa escolha indicia que Aluísio Azevedo quis produzir um romance de massas, para denunciar o revoltante modo de vida de um embrutecido grupo social. Desse modo, as personagens principais existem dentro de um contexto que não é pretexto, mas dado essencial e indispensável para a compreensão dos contrastes que a narrativa levanta. Com isso, pode-se afirmar que a unidade de composição da obra é fornecida pelo próprio cortiço, que a delimita com rigor no tempo e no espaço.


Foco narrativo

Foco Narrativo

Os narradores dos romances naturalistas têm como traço comum a onisciência, que lhes permite observar as cenas diretamente ou por meio dos protagonistas. Pedagogicamente, privilegiam a minúcia descritiva, revelando ao leitor as reações externas e internas das personagens, abrindo espaço para os retratos literários e para o detalhamento do cotidiano banal.

Aluízio Azevedo escolheu essa visão absoluta frente à ação. Ao optar por um narrador onisciente e observador, que registra tudo com bastante nitidez e riqueza de detalhes, age como se tivesse à mão uma câmera cinematográfica dotada de lente grande angular e de microfone ultra-sensível. Dessa maneira, ele pode estar ao mesmo tempo dentro e fora de cada uma das personagens, penetrar, decompor e recompor um imenso painel social e moral, ora focalizando as cenas num plano geral, ora descendo aos detalhes físicos das personagens. O narrador vale-se do recurso da reiteração para intensificar o dinamismo das cenas e favorecer os efeitos de aceleração e de retardamento, conforme as modulações exigidas pelo assunto. O ritmo que imprime à narrativa é trepidante, com um movimento incessante de vai e vem, em que demonstra completo domínio sobre a ação cujos desdobramentos ressaltam a pressão dos determinismos raciais, ambientais e históricos sobre as personagens. Ele parece conhecer o significado do real. Tudo o que acontece é captado pelo leitor, que acompanha de forma direta o que o autor elaborou.


Tempo espa o meio

Tempo / Espaço / Meio

Seguindo os preceitos do Naturalismo, Aluísio se empenha em fazer a ação do romance transcorrer numa época imediatamente anterior à sua publicação. Embora não forneça nenhuma data precisa, refere-se a certos episódios, como o surgimento de fábricas, suficientes para situar o período no qual ocorre. Numa rápida evocação do passado, o velho Botelho, ainda rico na época da guerra do Paraguai, hostiliza a Lei do Ventre Livre de 1871, o que possibilita localizar a ação do romance entre 1872 e 1880. Os imigrantes italianos, numerosos no cortiço, vieram para o Brasil em decorrência do processo de unificação da Itália, também ocorrida no mesmo período.

  • O desenvolvimento do enredo se dá linearmente: acompanha a trajetória de João Romão desde a juventude pobre até a maturidade abastada. Isto permite concentrar o tempo narrado em alguns poucos anos. O romancista só deixará essa progressão temporal ao fazer digressões para fornecer ao leitor indi­cações indispensáveis à compreensão do passado das personagens.

  • O espaço no qual se desenvolve a ação é bem delimitado. O cortiço situa-se no bairro deBotafogo, perto de um morro onde há uma pedreira. O sobrado do rico comerciante Miranda situa-se na vizinhança desse local. O romancista exclui do ambiente tudo aquilo que não é necessário para justificar o comportamento das personagens, que se modula de acordo com as leis da fisiologia e do meio social.

  • O que é importante no romance ocorre num cenário restrito, verdadeiro lugar de experimentação, por meio do qual Aluísio Azevedo leva o leitor a conhecer a qualidade de vida das classes desfavorecidas do Rio de Janeiro. Fala-se pouco das atividades políticas, intelectuais e artísticas da época; são as canções populares que predominam, constituindo-se em documentos que permitem recriar, especialmente, os ambientes em que trabalhava e se divertia o povo. As condições de vida comuns aos habitantes do cortiço determinam aparentemente o sentimento de pertencerem a um grupo. As mulheres trabalham juntas no tanque, os homens na pedreira ou nas pequenas fábricas dos arredores; as festas são as mesmas e as desgraças também.


O sol protagonista extra

Osol: protagonista extra

  • As "imposições do sol e do calor" acabam por tornar o habitante preguiçoso e vencido, anulando-lhe os sonhos de ambição, como se constata ao observar a progressiva decadência moral de Jerônimo. Também Piedade, quando se vê abandonada, levanta os punhos cerrados para o céu e explode sua revolta não em direção ao marido, "mas sim contra aquele sol crapuloso, que fazia ferver o sangue aos homens e metia-lhes no corpo luxúrias de bode. Parecia rebelar-se conta aque­la natureza alcoviteira, que lhe roubara seu homem para dá-lo a outra [u.] (cap. XVI, p.123)

  • A imagem da crisálida transformando-se em borboleta à luz do sol na cena da primeira menstruação de Pombinha, é bastante representativa dessa pressão solar. Só "depois que o sol lhe abençoou o ventre" é que Pombinha pôde compreender mais amplamente sua fisiologia de mulher e o poder que esta exerce sobre os homens.


Personagens

PERSONAGENS

Na construção do romance, Aluísio Azevedo procede como um maestro que rege uma imensa orquestra, constituída pela grande quantidade de personagens que acatarão o comando de sal batuta. Sem grande complexidade psicológica, são personagens que se caracterizam como estereótipos sociais, pois devem ser rapidamente assimiladas pelo leitor, já que se trata de tipos simplificados e reconhecíveis na vida real. Nas seqüências do livro, intervém um número cada vez maior de participantes, agindo e dialogando, sobretudo, nas cenas públicas: no pátio, espaço de trabalho e de fofoca das lavadeiras; na casa de pasto, onde os trabalhadores da pedreira fazem suas refeições; nos casebres e no pátio aos domingos de pagode e samba; no entrevero dos moradores dos dois cortiços; nas brigas com a polícia.


Jo o rom o

João Romão

A ascensão deste imigrante português, avaro, e ambicioso, apresentada paralelamente à história dos trabalhadores que ele explora de modo brutal, constitui-se no eixo da narrativa. Chegado ao Brasil com doze anos de idade, sem dinheiro e sem educação, ele tem a sorte de encontrar um patrão que o estimula a subir na vida, a ponto de lhe doar seu negócio. Graças à sua esperteza e astúcia, toma consciência das fraquezas dos que vivem em contato com ele para tripudiá-los. Aproveita-se da ignorância de Bertoleza, escrava negra que sente atração pelos brancos, para transformá-la em amante e besta de carga, um instrumento para iniciar a acumulação de fortuna. O mesmo oportunismo manifesta-se na construção, com material roubado, das noventa e cinco casinhas que formam a "Estalagem São Romão" e na aquisição e exploração da pedreira. Sua ascensão ilustra o poderio do dinheiro numa sociedade em que a única moral que existe é a do mais forte e do mais hábil. Cinicamente, ele chega ao ponto de "beatificar-se", intitulando seu estabelecimento com o nome do seu santo padroeiro. Os que se colocam numa posição de inferioridade são imediatamente depenados e liquidados por ele, tal como aconteceu com seu empregado Domingos, que ele expulsa sem salário porque havia engravidado a mulatinha Florinda. Foi também o caso de Libório, o velho avaro e repugnante, cujo dinheiro roubado compensa os prejuízos causados pelo incêndio de uma parte do cortiço. A falta de escrúpulos e a consciência do poder que o dinheiro confere fazem de João Romão um homem poderoso, que incorpora, ao mesmo tempo, as funções de senhor de escravos (disfarçadamente), de patrão comerciante, de especulador imobiliário, de agiota, de capitalista e, finalmente, de "genro", juntando os frutos de seu capital acumulado com o de seu ex-rival e futuro sogro, Miranda. Sua trajetória de ascensão social se dá simultaneamente a uma degradação moral e ética.

João Romão constrói seu império por meio de mentiras e explorações, com atitudes torpes e deploráveis, tornando-se um representante do modelo capitalistaque a sociedade do Rio de Janeiro tanto prestigiou.


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  • Bertoleza

    Inicialmente, supõe haver superado sua condição de escrava e de mulher de cor, amasiando-se com um branco e trabalhando com perseverança, embora em condições precárias, para servir de esteio à prosperidade econômica de João Romão. Depois, de tanto ser maltratada pelo companheiro, resigna-se com a condição de mulher duplamentesubmissa, a quem não é dado o direito de falar e muito menos de questionar. O único momento em que tem voz e vez é quando se rebela, após ter sido mais uma vez espezinhada por João Romão, que costumava chamá-la de "preta dos diabos". A prosperidade, que o tornara "quase um nobre carioca", dá-se à custa do esmagamento de Bertoleza. Ela morre, derrotada pela lei selvagem e impiedosa de uma seleção social que só valoriza os vitoriosos e bem-sucedidos.

  • Miranda

    A posse do sobradosimboliza o sucesso alcançado por este comerciante português, que representa a alta burguesia aristocratizada, status que se confirma quando ele recebe a comenda de barão. Seus vícios, escondidos sob o manto das boas maneiras, afloram em demonstrações de mau-caratismo: mesmo havendo surpreendido a esposa em situação de flagrante adultério, ele não rompe o casamento nem a expulsa de casa, conforme certos padrões comportamentais oitocentistas, não porque não quisesse escândalo, mas para não perder sua privilegiada situação financeira e social, decorrente do dote da esposa ("oitenta contos em prédios e ações"). Cínico, não se acanha em procurá-la eventualmente para consumar uma relação carnal totalmente desprovida de afeto.


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  • Estela

    Sua relação com Miranda é fruto de uma associação de interesses, dissimulada pela etiqueta das conveniências sociais, onde a mulher entra com o capital e o homem com a sua gerência. Estela simboliza as mulheres burguesas acomodadas a um sistema econômico que nãodeixa nenhuma chance para elas. Não têm nenhuma liberdade e afogam seu tédio em ricas mansões sem alma. Assim, o adultério, a leitura, a vida mundana e fútil são as únicas possibilidades de evasão do tédio, à espera de uma velhice sem graça.

  • Jerônimo

    Antes de se "abrasileirar", era o típico imigrante empenhado em formar um pecúlio, como resultado natural de sua capacidade de trabalho, energia e honestidade. Tais valores, no entanto, dissipam-se, sob a influência mesológica. O agente dessa metamorfose é a mulata Rita Baiana, a "cobra" dinamizadora da despersonalização que o vitima. Alucinado pela liberação do instinto sexual, atola-se no pântano do vício, privando-se por completo do senso de honradez e justiça.

  • Piedade

    Após ter sido abandonada pelo marido Jerônimo, a portuguesa briga com Rita Baiana e entrega-se ao alcoolismo. Numa noite de bebedeira, deixa-se seduzir por Pataca, sob o olhar horrorizado da filha Marianita, que receberá posteriormente o cognome de Senhorinha, quando se torna alvo da atenção de Pombinha. A cena evidencia o grau de dissolução moral a que foi arrastada a portuguesa.


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  • Rita Baiana/Firmo

    O casal aparece como representante por excelên­cia do brasileiro e, por extensão, da terra tropical. A característica marcante de Rita Baiana é a sensualida­de, metaforizada sistematicamente por meio de uma perigosa serpente. Lasciva, transforma Jerônimo num homem degenerado, também porque sentia uma atração magnética por homens brancos e usava sua sexualidade como instrumento para subir na vida. Firmo, rejeitado por Rita Baiana, é apresentado como capoeira valente, brigador e violeiro. A improdutivi­dade do mulato acaba se transferindo para o abrasi­leirado Jerônimo, que o assassinara. As referências ao casal e a Jerônimo revelam também a pesquisa musi­cal feita por Aluísio, que fornece ricas informações sobre ritmos como o chorado, o samba, o lundu, a can­ção, o fado, bem como à viola, ao cavaquinho, à har­mônica e à guitarra, instrumentos que os moradores do cortiço manipulam com destreza nas festas.

  • Bruno/Leocádia

    O casal (ele, ferreiro; ela, lavadeira) representa o estereótipo dos moradores do cortiço. Quando Bruno descobre que estava sendo traído pela esposa, "uma portuguesa pequena e socada, de carnes duras, com uma fama de leviana", que se deixa seduzir por Henriquinho, ele a expulsa de casa, jogando pela janela todos os pertences da mulher. Algum tempo depois, arrependido do gesto escandaloso e tomado de afeto, solicita a mediação de Pombinha, para conseguir com que a esposa infiel retomasse ao lar desfeito.


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  • Pombinha

    Depois da falência e da morte do pai, Pombinha acompanhara a mãe, que fora viver no cortiço de João Romão. Isabel a poupa de todas as tarefas domésti­cas, habituando-a uma vida mais suave, que contrasta completamente com a realidade do cortiço. O nome da personagem evoca, de início, pureza de sentimen­tos, confirmada pela dupla função que exerce: enfer­meira e redatora/leitora de cartas. No entanto, ao ser seduzida por Léonie, entra em contato com o que há de mais espúrio. Vem a sua primeira menstruação, quando sonha ser penetrada pelo raio fálico do sol. A seguir, casa-se, mas logo abandona o marido, por con­siderá-lo medíocre. Essas experiências vão se somando e indiciam que valera para ela a impiedosa lei social-animal, a mesma que absorvera outras meninas criadas "no lodaçal do cortiço". Ao tornar-se prostituta, transforma-se numa espécie de anti-Dama das Camélias: um bom caráter, que apodrece sem remissão. Rapidamente, ela acumula certa fortuna, responsabilizando-se pela educação de Senhorinha, que fora abandonada pelo pai decadente e pela mãe, que se tornara alcoólatra depressiva. Pombinha proporciona à menina o mesmo que recebera de Léonie. Assim, "a cadeia continuava e continuaria interminavelmente: o cortiço estava preparando uma nova prostituta na­quela pobre menina desamparada." (cap. XXII, p.155)

  • Léonie

    Prostituta de elite, transita à vontade, no mundo dos poderosos e no universo carente do cortiço. Homens ricos buscavam nas cocottes de luxo os praze­res embriagadores, para atenuar o vazio de suas existências. Aluísio descreve com detalhes significati­vos a vida dessas prostitutas, que construíam fortu­nas fantásticas à custa de satisfazer a luxúria de políti­cos, comerciantes e estudantes libidinosos.


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  • Leandra, a machona

    Com seus pulsos cabeludos e grossos, "anca de animal do campo", era o protótipo da portuguesa fe­roz, berradora, sempre disposta à briga. Quando seu filho Agostinho sofre um acidente na pedreira e morre, Leandra entra em depressão, apesar do apoio da­do pelas filhas. Neném era uma adolescente espigada e franzina que escapava como "enguia por entre os dedos dos rapazes que a queriam sem ser para ca­sar". Das Dores morava em casa separada, desde que "largara o marido para meter-se com um homem do comércio".

  • Paula, a "'Bruxa"

    Cabocla velha, mandigueira, sabia receitas ca­seiras com que preparava remédios e chás à base de plantas. Mística, sabia também preparar feitiço para os que solicitavam seus préstimos. "Feia, grossa, triste: com olhos desvairados, dentes cortados à navalha, formando ponta, como dentes de cão", teve justifica do seu apelido de "Bruxa" louca ao incendiar o cor­tiço. Na pavorosa cena em que é devorada pelas cha­mas, é descrita como um animal, com "a sua crina pre­ta, desgrenhada, escorrida e abundante como as das éguas selvagens".

  • Libório

    Esse octogenário "parecia mumificado pela idade". Personagem emblemática de certas deformações provocadas pelo capitalismo, submete-se a viver de esmolas, materiais e afetivas. Sovina; costumava rou­bar doces e moedas das crianças. João Romão desco­bre que o velho acumulava muitas notas sujas em garrafas e o rouba, durante o incêndio, utilizando o di­nheiro para construir os sobradinhos da gloriosa Ave­nida São Romão.


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  • Botelho

    Ladino e espertalhão, este avarento decrépito é comparado a um abutre; ele simboliza os velhos para­sitas que sugam a seiva vital de todos os que estão próximos, para obter vantagens materiais. Assim, ga­nha a confiança de Miranda e, mais tarde, a de João Romão, de quem se torna alcoviteiro, não hesitando em chantageá-lo para promover o contato com Zul­mira, com quem o ex-vendeiro pretendia se casar, no coroamento de sua carreira.

  • Henriquinho

    Rapaz rico, viera do interior para o Rio de Janei­ro, a fim de se preparar para o ingresso no curso de medicina. Filho de um fazendeiro que se tornara o melhor freguês da loja de Miranda, ele vivia como hóspede no sobrado do atacadista português. Boni­tinho, tinha "delicadezas de menina", o que o trans­forma em alvo das investidas sexuais de Estela e do velho Botelho, mas que não o impede de seduzir a fú­til Leocádia, esposa de Bruno.

  • Domingos

    De baixo estrato social, era caixeiro da venda de João Romão. Após engravidar Florinda e abandoná-la, é demitido sumariamente pelo patrão, sob o pre­texto de livrá-lo da fúria que se abatera sobre a mãe de Florinda e as demais lavadeiras.

  • Albino

    Era lavadeiro, "um sujeito afeminado, fraco, cor de espargo cozido e com um cabelinho castanho, des­lavado e pobre, que lhe caía, numa só linha, até ao pescocinho mole e fino". Vivia sempre entre as mu­lheres, que o tratavam como a uma pessoa do mesmo sexo. No carnaval, vestia-se de dançarina, saía a pas­sear pelas ruas e a dançar nos teatros. Nos outros dias, "ninguém o encontrava, domingo ou dia de semana, lavando ou descansando, que não estivesse com a sua calça branca engomada, a sua camisa lim­pa, um lenço ao pescoço, e, amarrado à cinta, um avental que lhe caía sobre as pernas como uma saia."


Tra os tem ticos

TRAÇOS TEMÁTICOS

Determinismo

  • Os pares João Romão/Bertoleza, Miranda/Estela, Jerônimo/Piedade, são os que, principalmente, vêm focalizados sob o crivo do determinismo. Os homens simbolizam os estágios pelos quais passam os imigrantes portugueses, cujas possibilidades de sucesso, maiores ou menores, são condicionadas pela capacidade desuperar os antagonismos do meio. As mulheres apenas sofrem as consequências dessa integração, bem ou mal sucedida.

  • As intrigas relativas ao casal Jerônimo/Piedade servem para a demonstração da tese do determinismo ambiental, pois as pressões se exercem de forma irreversível sobre eles. Jerônimo, português trabalhador "pescoço de touro" e "cara de Hércules", acaba se transformando num sujeito preguiçoso, "amigo das extravagâncias e dos abusos, luxurioso e ciumento". Piedade, uma típica saloia, com "um todo de bonomia toleirona, desabotoando-lhe pelos olhos e pela boca numa simpática expressão de honestidade simples e natural", ao ser abandonada pelo marido, chora de forma tristonha, como "uma vaca chamando ao longe, perdida ao cair da noite num lugar desconhecido e agreste", liberando um "mugido lúgubre". No final, é subjugada pelo vício do alcoolismo.

  • Num plano geral, é inegável o caráter moralizante da obra, que denuncia o rebaixamento a que são submetidos os moradores do cortiço. Tal situação só poderia frutificar por haver um governo permissivo, desinteressado pelo povo, que possibilita a indivíduos como João Romão explorar inescrupulosamente a força de trabalho das lavadeiras e dos operários, obrigados a se desdobrar, para fazer frente às taxas de aluguel das casinhas e aos exorbitantes preços dos alimentos na venda.


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  • Antropomorfismo - Crença ou pensamento que atribui formas ou atributos humanos a entidades abstratas ou seres não humanos. (personificação ou prosopopeia).

    Desde as cenas iniciais, o autor usa do efeito estilístico da prosopopéia para transformaro cortiço, um aglomerado habitacional, num ambiente carregado de vida, num grande organismo capaz de alimentar-se, trabalhar, procriar, dormir e acordar. O aproveitamento desse recurso retórico possibilita transformar o cortiço num ser vivo e animado:

    Eram cinco horas da manhã e o cortiço acordava, abrindo, não os olhos, mas a sua infinidade de portas e janelas alinhadas.

    Um acordar alegre e farto de quem dormiu de uma assentada

    sete horas de chumbo. Como se sentia ainda na indolência da

    neblina as derradeiras notas da última guitarra da noite

    antecedente, dissolvendo-se à luz loura e tenra da aurora, que

    nem um suspiro de saudade perdido em terra alheia.

    (cap.I1I, p. 28, grifos nossos)

    Nos dias de folga, o cortiço "parecia dormir seu sono de pedra", isto é, descansa de forma análoga à dos homens. Num ambiente de animalidade geral, o conjunto da habitação coletiva é visto como "aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas, [uma] massa informe (...) a comichar, a fremir concupiscente, sufocando-se uns aos outros".

    Progressivamente, essa entidade ganha autonomia e se torna capaz de governar tudo e todos, de forma arbitrária e absoluta, transformando-se no verdadeiro protagonista do romance, um organismo que canibaliza todos os que ali vivem.


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  • Zoomorfismo

  • Do ponto de vista mais genérico e amplo, as personagens do romance são designadas como animal ou besta; afinal, suas existências se resumem a "comer, dormir e procriar". O gosto naturalista pela fisiologia acentua esta concepção da vida, limitada ao sexo e à nutrição, sem espaço para as atividades do espírito. São formas de tratamento que indiciam a irracionalidade da espécie humana, reduzida que é, aos instintos. Como forças brutas, só podiam servir para a exploração. Os excertos seguintes ilustram tal procedimento:

    Um dia, porém, o seu homem, depois de correr meia légua, puxando uma

    carga superior às suas forças, caiu morto na rua ao lado da carroça,

    estrompado como uma besta, (cap. I, p. 13, grifo nosso) as mulheres iam

    despejando crianças com uma regularidade de gado procriador" [ ... ]

    "mostrando a uberdade das tetas cheias. (cap. XIV, p. 112, grifo nosso)

    estalavam todos por saber quem a [Florinda] tinha emprenhado".

    (cap.IX, p.71, grifo nosso)

  • Fitomorfismo

    Várias vezes, Aluísio passa sem transição do registro zoológico para o registro botânico, num processo de superposição dos planos:

    o rumor crescia condensando-se: o zunzum de todos os dias acentuava-se; já se não destacavam vozes dispersas, mas um só ruído compacto que enchia todo o cortiço. (...) Sentia-se naquela fermentação sanguínea, naquela gula viçosa de plantasrasteiras que mergulham os pés vigorosos na lama preta e nutriente da vida C .. ). (cap. m, p. 29, grifo nosso)

  • Como um grande organismo vicioso, o cortiço é um lugar "propício à fecundação e germinação de células vivas".19 Para evidenciar o embrutecimento a que são submetidos os que vivem nesse ambiente deformador, o autor rebaixa as personagens à condição de plantas:

  • E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa, começou a minhocar, a esfervilhar, a crescer, um mundo, uma coisa viva, que parecia brotarespontânea, ali mesmo, daquele lameiro (...). (cap.i p. 21, grifo nosso)


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  • Darwinismo social

    As metamorfoses por que passam as persona­gens atendem a leis genéticas, biológicas, raciais e ecológicas. Como exemplo mais ostensivo da aplica­ção do darwinismo social, representado pela teoria evolucionista de Spencer, pode-se evocar a trajetória de ascensão social de João Romão, que se torna um indivíduo vitorioso segundo um critério análogo ao da seleção das espécies. Ele ascende na escala social e econômica assumindo valores tidos como positivos na sociedade. Quanto mais avança na escala social e financeira mais degraus ele desce em termos éticos e morais. Para estabelecer um contraste, com Jerônimo ocorre o fenômeno inverso: após atingir o máximo de sua posição de assalariado, ele é envolvido pela sen­sualidade de Rita Baiana, deixa-se levar pelo instinto sexual e entra em irreversível decadência.Aluísio apresenta a vida em sociedade como uma selva cruel, onde os fortes devoram os fracos.

  • Sexualidade ostensiva

    O cortiço é apresentado como um viveiro de per­sonagens, embrutecidas pela exacerbação dos senti­dos. Como todo bicho, o homem é dominado por reações instintivas, que se evidenciam, sobretudo, no comportamento sexual, para escândalo da moral bur­guesa. Ao longo do romance, o binômio sexo/luxúria é referido constantemente por meio de imagens chocantes:

    A filha [Florinda] tinha 15 anos, a pele de um more­no quente, beiços sensuais, bonitos dentes, olhos luxu­riosos de macaca. Toda ela estava a pedir homem, mas sustentava ainda a sua virgindade ... " (cap. m, pp. 30-31, grifas nossos)


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(ESPM) Dos segmentos abaixo, extraídos de O Cortiço, de Aluísio Azevedo, marque o que não traduza exemplo de zoomorfismo:a) Zulmira tinha então doze para treze anos e era o tipo acabado de fluminense; pálida, magrinha, com pequeninas manchas roxas nas mucosas do nariz, das pálpebras e dos lábios, faces levemente pintalgadas de sardas.b) Leandra...a Machona, portuguesa feroz, berradora, pulsos cabeludos e grossos, anca de animal do campo.c) Daí a pouco, em volta das bicas era um zunzum crescente; uma aglomeração tumultuosa de machos e fêmeas.d) E naquela terra encharcada e fumegante, naquela umidade quente e lodosa começou a minhocar,... e multiplicar-se como larvas no esterco.e) Firmo, o atual amante de Rita Baiana, era um mulato pachola, delgado de corpo e ágil como um cabrito...


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(ITA) Leia as proposições acerca de O Cortiço.I. Constantemente, as personagens sofrem zoomorfização, isto é, a animalização do comportamento humano, respeitando os preceitos da literatura naturalista.II. A visão patológica do comportamento sexual é trabalhada por meio do rebaixamento das relações, do adultério, do lesbianismo, da prostituição etc. III. O meio adquire enorme importância no enredo, uma vez que determina o comportamento de todas as personagens, anulando o livre-arbítrio. IV. O estilo de Aluísio Azevedo, dentro de O Cortiço, confirma o que se percebe também no conjunto de sua obra: o talento para retratar agrupamentos humanos. Está(ão) correta(s) a) todas.b) apenas I.c) apenas I e II.d) apenas I, II e III.e) apenas III e IV.


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