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O DEPUTADO

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Presentation Transcript


  1. O DEPUTADO

  2. Os passageiros dos barcos que chegavam ao sítio Boa Esperança diziam que as ruas de Alenquer estavam tomadas por soldados do Exército; os rios, lagos e igarapés pelas corvetas da Marinha; e que aviões e helicópteros da Aeronáutica não paravam de sobrevoar as redondezas procurando um tal comunista, que estava escondido naquelas paragens armado até os dentes, liderando os colonos para tomar a cidade. Alertavam o povo para que tomasse muito cuidado, porque aquilo era parte de um esquema nacional de subversão para entregar o Brasil aos russos, assim como aconteceu com Cuba. Ninguém podia ficar nas ruas depois de escurecer que era preso. Para os civis a insegurança era total. Os militares desconfiavam de todo mundo até mesmo das próprias sombras. Nas edições extraordinárias das rádios, as notícias eram de que o Brasil fora tomado pelos militares em nome da Segurança Nacional e que tanto os comunistas declarados, como os simpatizantes desta ideologia, estavam sendo presos aos bandos. Os mais visados eram os petroleiros, estudantes, operários, colonos, intelectuais, artistas e vagabundos. Estes últimos eram tidos como os mais perigosos, porque geralmente não tinham documentos, por isso podiam ser inimigos disfarçados. As rádios falavam, também, que os militares estavam em toda parte do Brasil, como formigas defendendo a cidadela e conclamavam a população a unir-se a eles.

  3. Eu estava contando mais ou menos isso para Florêncio e Aurora, quando chegaram ao Sol Nascente quatro homens, todos barbados e sujos, naquele começo de manhã. Pareciam bichos do mato. Um deles trazia na mão um rádio que pegava tudo, um Transglobe, paresque de 12 faixas, a pilha. Foi num parecido que ouvi as notícias lá no Boa Esperança. A BBC de Londres e a Voz da América eram as estações mais enxeridas, estavam em todas as faixas. Os homens foram chegando como se já conhecessem os donos. Três se agasalharam na casa de farinha e um outro, o mais alto, com um terçado rabo-de-galo na mão, ficou no terreiro olhando para a boca da mata por onde tinham vindo, como se estivesse vigiando. Demonstravam estar fugindo de alguma coisa. De todos, o que chamava mais a atenção era o branco, que parecia que nunca tinha pegado sol, era baixinho, cabelos lisos, voz educada, mãos e rosto de gente bem tratada, barriga saliente, de calção e descalço. Os companheiros chamavam-no de Deputado. Dava a impressão de que ele não estava acostumado com aquelas aventuras dentro do mato, pois seu corpo, principalmente as pernas e braços, sangrava muito de tanto cortes de cipós, capins navalhas e picadas de insetos. Com os outros, era o contrário, não estavam nem aí para aquela andança, pareciam conhecer bem a situação. Eram homens cheios de suraca, acostumados naquela lida. Mas o Deputado era virgem naquelas experiências. Estava sendo levado por aqueles três.

  4. Pediram água e alguma coisa para comer. Aurora foi buscar água, enquanto Florêncio foi matar duas galinhas, pois pareciam famintos, e eu fiquei fazendo-lhes companhia. O Deputado, depois de ligar o rádio e ouvir as notícias, disse que já estavam no mato há uns 16 dias e que não estavam comendo e nem dormindo direito. Isto aconteceu no dia 16 de abril de 1964, lembro-me bem, pois foi nesse dia que fui pela primeira vez ao sítio do Sol Nascente no motor de popa Archimeds, que eu tinha comprado na loja do Zé Megale, na cidade. Até então eu só ía de canoa.O Deputado disse também que os militares tinham deposto o presidente do Brasil Jango Goulart por vontade dos americanos, que ficam logo aí em cima de nós, e justamente por lutar contra essa falta de patriotismo dos militares, é que agora estavam atrás dele e de seus companheiros no Brasil inteiro. Muitos até já fugiram para Cuba, Chile, Guianas...Ele disse ainda que a posição deles era a de defesa do povo pobre, do povo que não tem voz, do povo que não tem onde morar e que não tem terra para plantar, do povo que tem os filhos com a saúde fraca e sem escola para estudar. Que queriam estender a chance de vida melhor a todos os brasileiros, como queriam os nossos irmãos cabanos. Enfim, que lutavam pela construção de um Brasil novo, sadio, culto, rico e digno, onde as oportunidades fossem as mesmas para todos e não esse Brasil descompensado, construído com o suor dos pobres pelos ricos e para os ricos, com milhões de brasileiros morrendo de fome e doente todo dia.

  5. Depois que ouvi o Deputado, simpatizei logo com ele. Tudo o que ele dizia eu apoiava dentro de mim. Eu achava e ainda acho que todos devem ter os mesmos direitos e as mesmas chances. Ninguém é diferente um do outro, somos todos brasileiros. Eu pensava assim e ainda penso. Às vezes ficava matutando no Boa Esperança sobre isso, por que pouquíssimos tem muito e muitíssimos têm nada? Comecei a ser respondido naquela dia.O Deputado disse também que a gente tem que se tornar primeiro consciente de nossos direitos para depois lutar por eles para não ser massa de manobra. Foi aqui, exatamente aqui, neste pedaço da conversa, que descobri que ele não era fraco coisa nenhuma, a suraca dele estava toda na cabeça, bem agasalhada no cérebro. Eu estava cuíra por saber o seu nome, mas seus companheiros só lhe chamavam de Deputado e eu tinha vergonha de perguntar.Assim que terminaram de comer, descansaram um pouco e prosseguiram a caminhada pelo mesmo caminho, mas na direção do outro lado da mata. O rádio, carregado por um deles, ía tagarelando as últimas notícias que quebravam o silêncio do sítio do Sol Nascente e deixando os japiins assanhados nas sapucaias próximas da casa. O Deputado tinha plano de chegar ao Porto Palha e atravessar o rio Curuá a nado. No outro lado, achava que estaria a salvo.Coisa de uma hora depois, já com o sol querendo entrar pela tarde, chegou uma turma de cinco soldados apressados, com as fardas também sujas de lama, e cada qual com uma metralhadora e um fuzil. Chegaram como se fossem os donos do local. O comandante ficou na cozinha junto de nós, sem dizer uma palavra. Dois soldados ficaram fora, estrategicamente colocados em torno do terreiro. Um entrou para revistar a casa e o outro ficou vasculhando a área, inclusive as árvores galhudas e as touceiras de ananás.

  6. O que entrou na casa, após revirar tudo, encontrou a cartucheira velha do Florêncio de caçar pendurada na parede e trouxe-a para fora, onde, após a examinar, disse que ainda dava para estragar alguém e entregou-a ao Comandante. Até então não tinham trocado uma palavra sequer conosco. Este comportamento deixou-nos apavorados, principalmente as armas, que até faziam questão de mostrar para amedrontar-nos. O soldado que ficou vasculhando o terreiro veio até o comandante e disse que o comunista já tinha passado, pois vira uma pegada no chão que só podia ser dele, era delicada demais. Excluindo as nossas pegadas, o soldado provou que ele estava acompanhado de mais três. Além disso, para reforçar seu raciocínio, disse que várias pessoas comeram fora de hora, apressadas, não fazia muito tempo, e a prova eram os ossos e as penas de galinhas amontoados no formigueiro do pé do limoeiro. Era comida que dava para sete pessoas, estes três aqui, indicando-nos com o cano do fuzil, e eles quatro, que já devem estar longe daqui, concluiu.Um dos soldados que ficaram de vigia no terreiro disse que estava admirado da resistência desse comunista, o que mostrava o quanto ele era perigoso. Foi aí que o comandante falou e perguntou-nos quantas metralhadoras eles carregavam. Respondi-lhe que todos estavam desarmados, que apenas um deles levava um terçado de abrir picada no mato e que podiam muito bem estar nos observando de longe de dentro da mata, cansados, assim como qualquer bicho do mato se protegendo. O comandante deu uma olhada geral no terreno, observou demoradamente a mata onde os quatro fugitivos se enfronharam, chamou seus soldados e continuaram a caçada.

  7. No outro dia, quando retornei ao Boa Esperança, encontrei-o tomado por soldados, acho que uns trinta. O italiano Fortunato, seu proprietário, estava entre dois, que não o deixavam para nada. Os empregados do sítio, inclusive a preta Zulmira e a cozinheira Estela Boacomida com os filhos, estavam amontoados num canto da Sala das Lembranças vigiados por três, todos armados. Os demais moradores e trabalhadores estavam detidos no galpão de carga de embarque e desembarque do sítio. Ninguém podia falar, nem mesmo se coçar. Aquelas armas faziam deles os donos do mundo... Para se ter paz não é preciso armas , mas amor! A arma agrava o mal...Os soldados que tinham passado pelo sítio do Sol Nascente dia anterior estavam numa das pontes dando guarda diante de uma embarcação. No meio do rio, uma corveta parecia vigiar afrontosamente os movimentos de terra.- Capitão, missão cumprida, o comunista e seus camaradas já estão no barco, disse um sargento batendo continência.- Estão bem presos? Perguntou o capitão.- Sim, estão todos no porão, pés e mãos amarrados, tornou a falar o sargento.- Então, é hora de zarpar.

  8. Dias depois, Gumercindo Viravolta, um concorrente de Fortunato na região de Bonquedói, passou pelo Boa Esperança dizendo que a população alenquerense ficou arrasada quando viu o Deputado Bené Monteiro descalço, barbado, sujo, algemado como um criminoso perigoso, no meio de soldados atupetados de armas, caminhando em desfile na rua principal de Alenquer, a Avenida Getúlio Vargas. A população tinha torcido para que ele não fosse capturado, entretanto, os militares em quantidade foram mais espertos ao esgaravatar as matas e igarapés alenquerenses e prenderam-no. Como prêmio dessa façanha, os militares, “milicos” como esses profissionais passaram a se chamados pelos ximangos, desfilaram orgulhosamente com ele pelas ruas de sua terra natal, como a intimidar os alenquerenses e a mostrar como os comunistas e seus simpatizantes deviam ser tratados. - Alenquer toda chorou ao vê-lo naquela situação humilhante, principalmente as mulheres, afinal é um dos filhos mais ilustres de Alenquer, que ficou tomada de tristeza como um cemitério. Contrariando esse sentimento, uns poucos indivíduos, quase todos políticos adversários e empresários ávaros, soltaram foguetes de alegria, disse Gumercindo.As crianças e os jovens não entendiam o que se passava com aquele homem, nem mesmo os mais velhos, pois ele lhes é um exemplo, um líder nato, cheio de sabedoria, graças aos seus empenhos na defesa dos mais fracos.

  9. Benedicto Wilfredo Monteiro, 84, alenquerense, político, advogado e escritor, faleceu dia 16 de junho de 2008, às 19 horas, no Hospital Porto Dias. Seu corpo foi velado na Academia Paraense de Letras e cremado no cemitério Max Domini. As cinzas foram levadas para sua terra natal, Alenquer. Bené era um idealista. Obra literária que o consagrou como escritor: VERDE VAGOMUNDO, escrita na prisão. Escreveu e publicou mais de 20 livros. Está no mesmo nível dos escritores universais. Missa de sétimo dia, 21/06, 09:30 horas, Igreja dos Capuchinhos.

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