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O romantismo literário – 1 Geração Prof Áurea Christina R Lacerda

EE Coronel Calhau/ EE Orlando Alves Pereira. O romantismo literário – 1 Geração Prof Áurea Christina R Lacerda. ROMANTISMO NO BRASIL A PRIMEIRA GERAÇÃO (GERAÇÃO NACIONALISTA)

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O romantismo literário – 1 Geração Prof Áurea Christina R Lacerda

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Presentation Transcript


  1. EE Coronel Calhau/ EE Orlando Alves Pereira O romantismo literário – 1 GeraçãoProf Áurea Christina R Lacerda

  2. ROMANTISMO NO BRASIL A PRIMEIRA GERAÇÃO (GERAÇÃO NACIONALISTA) A contribuição dos teóricos europeus, o nacionalismo ufanista pós-1822 e as viagens para o exterior de uma jovem intelectualidade - nascendo daí o famoso sentimento do exílio - fornecem o quadro histórico onde aponta a primeira geração romântica. O apogeu da mesma ocorre entre 1836 e 1851, quando Gonçalves Dias publica Últimos cantos, encerrando o período mais fértil e criativo de sua carreira.

  3. 1. GONÇALVES DE MAGALHÃES (1811-1887) Obras:Suspiros poéticos e saudades (1836); A confederação dos tamoios (1857) A Gonçalves de Magalhães coube a precedência cronológica na elaboração de versos românticos. Suspiros poéticos e saudades é a materialização lírica de algumas idéias do autor sobre o Romantismo, encarado como possibilidade de afirmação de uma literatura nacional, na medida em que destruía os artifícios neoclássicos e propunha a valorização da natureza, do índio e de uma religiosidade panteísta. No entanto, faltava a Magalhães autêntica emoção poética para tornar efetivas suas teorias. Em sua obra ele afirma: Meus versos são suspiros de minha almaSem outra lei que o interno sentimento. Isto, porém, não encontra correspondência nela mesma. Os sentimentos são apresentados de uma maneira retórica, freqüentemente "despoetizados" por imagens de mau gosto: Nas veias o sangue já não me galopa,em sacros furores nos lábios me fervem;A lira canora do cisne beócio,deixei sobre a trípode. * Canora: sonora, Beócio: ignorante

  4. Durante anos, Gonçalves de Magalhães foi considerado o maior poeta pátrio. Transformou-se em símbolo oficial da literatura brasileira, merecendo inclusive grande apreço de D.Pedro II. A confederação dos tamoios, tentativa de indianismo épico em que a prolixidade* dissolve o lirismo, significou a crise dessa carreira triunfante. Submetida à primeira e dura revisão crítica, com José de Alencar denunciando o artificialismo de sua composição, a obra de Magalhães começou a ser relegada a um plano secundário. Sob pseudônimo, o próprio Imperador sai em defesa de seu protegido, mas os argumentos de Alencar eram irrefutáveis. Restava-lhe a importância histórica, e esta era incontestável. O Romantismo fora introduzido por ele: Triste sou como o salgueiroSolitário junto ao lagoSuspirar, suspirar...Tal é o meu fado! * Prolixidade: redundância, exagero verbal.

  5. 2. GONÇALVES DIAS (1823-1864) Vida: Filho de um comerciante português e de uma mulata que viviam em concubinato, Antônio de Gonçalves Dias nasceu em Caxias, no Maranhão. Quando o menino tinha seis anos, o pai casou-se com uma moça branca e proibiu o filho de visitar a mãe, que se reencontraria com o filho apenas quinze anos depois. Antônio cresceu trabalhando como caixeiro na loja do pai e teve uma boa educação, sendo enviado com quatorze anos para Portugal. A morte do pai, no mesmo ano, trouxe o rapaz de volta ao Maranhão, porém a madrasta cumpriu a vontade do marido quanto ao filho e mais uma vez o futuro poeta foi mandado para Coimbra. No início de 1845, retornou à sua província natal, já formado em Direito. Sua origem mestiça não era evidente à primeira vista. A sociedade de São Luís o recebeu bem e ele conheceu então aquela que - algum tempo depois - seria o grande amor de sua vida, a jovem Ana Amélia.

  6. Antes da eclosão desse amor extremado, viajou para o Rio de Janeiro, onde se radicaria. Virou professor de Latim no Colégio Pedro II e lançou, com notável repercussão, os Primeiros cantos e os Segundos cantos. De imediato, obteve a proteção imperial, ocupando diversos cargos de importância nas áreas de pesquisa escolar e de busca de documentos históricos. Em visita ao Maranhão reencontrou Ana Amélia e a pediu em casamento. A família da moça recusou o poeta, alegando a sua origem bastarda e mulata. Exasperado, casou-se com Olímpia Coriolana, provavelmente a primeira mulher que encontrou depois da recusa e com a qual viveu um casamento infeliz. Viajou muito pelas províncias do Norte e pela Europa, sempre a serviço. Afetado pela tuberculose, tentou a cura na França. Desenganado pelos médicos, retornou num cargueiro que naufragaria, já nas costas do Maranhão. A única vítima do naufrágio foi o poeta, que contava então quarenta e um anos de idade.

  7. Obras: Primeiros cantos (1846); Segundos cantos (1848); Sextilhas de frei Antão (1848); Últimos cantos (1851); Os timbiras (1857). Gonçalves Dias consolidou o Romantismo no Brasil com uma produção poética de boa qualidade. Entre os autores do período é o que melhor consegue equilibrar os temas sentimentais, patrióticos e saudosistas com uma linguagem harmoniosa e de relativa simplicidade, fugindo tanto da ênfase declamatória como da vulgaridade. Pode-se dizer que o seu estilo romântico é temperado por uma certa formação clássica, o que evita os excessos verbais tão comuns aos poetas que lhe foram contemporâneos. No prefácio do livro de estréia, Primeiros cantos, ele define a liberdade métrica e a variedade temática que dominam a sua lírica: Muitas delas (as poesias) não têm uniformidade nas estrofes, porque menosprezam regras de mera convenção; adotei todos os ritmos de metrificação portuguesa, e usei deles como me pareceram melhor com o que eu pretendia exprimir. Não têm unidade de pensamento entre si, porque foram compostas em épocas diversas - debaixo de céu diverso - e sob influência de impressões momentâneas. Sua obra se articula em torno de três assuntos principais: o índio a natureza o amor impossível

  8. O Indianismo

  9. A superioridade do autor maranhense sobre outros escritores indianistas resulta de três fatores: - maior conhecimento da vida aborígene; - uso épico e lírico de um índio ainda não deculturado pelo homem branco; - esplêndido domínio estilístico, sobretudo na questão do ritmo e da estrutura melódica. Vários de seus poemas, que tratam dos primitivos habitantes, tornam-se antológicos, entre os quais Marabá, O canto do piaga, Leito de folhas verdes e, principalmente, I-Juca Pirama.

  10. I-JUCA PIRAMA Este texto é uma espécie de síntese do indianismo de Gonçalves Dias seja pela concepção épico-dramática da bravura e da generosidade de tupis e timbiras, seja pela ruptura, ainda que momentânea, da convencional coragem guerreira, seja ainda pelo belíssimo jogo de ritmos que ocorre no texto. I-Juca Pirama significa "aquele que vai morrer" ou "aquele que é digno de ser morto". Em sua abertura, o poeta apresenta o cenário onde transcorrerá a história: No meio das tabas de amenos verdores,Cercadas de troncos - cobertos de flores,Alteiam-se os tetos de altiva nação. (...)São todos Timbiras, guerreiros valentes!Seu nome lá voa na boca das gentes,Condão de prodígios, de glória e terror!

  11. Em seguida, inicia-se um ritual antropofágico: "Em fundos vasos d'alvacenta argila / ferve o cauim. / Enchem-se as copas, o prazer começa, / reina o festim." O jovem prisioneiro tupi, que vai ser devorado, resolve falar antes do desenlace, e com "triste voz" narra a sua vida desventurada. Ao metro anterior, de dez sílabas poéticas, plástico e alegre, sucedem-se os versos de cinco sílabas, curtos, rápidos, sincopados. Estas variações contínuas indicam que o ritmo varia de uma parte do poema a outra, traduzindo a multiplicidade de situações do argumento. Meu canto de morteGuerreiros, ouvi:Sou filho das selvas,Nas selvas cresci;Guerreiros, descendoDa tribo tupiDa tribo pujante,Que agora anda errantePor fado inconstante,Guerreiros, nasci:Sou bravo, sou forte,Sou filho do Norte;Meu canto de morte,Guerreiros, ouvi.

  12. O índio tupi no seu canto de morte lembra o velho pai, cego e débil, vagando sozinho, sem amparo pela floresta, e pede para viver: Deixai-me viver! (...)Não vil, não ignavo,*Mas forte, mas bravo,Serei vosso escravo:Aqui virei ter.Guerreiros, não choro;Do pranto que choro;Se a vida deploro,Também sei morrer. * Ignavo: preguiçoso. O chefe timbira manda soltá-lo. Não quer "com carne vil enfraquecer os fortes". Solto, o jovem tupi perambula pela floresta até encontrar o pai. Este, pelo cheiro das tintas utilizadas no ritual, pelo apalpar do crânio raspado do filho, e por algumas perguntas sem resposta, desconfia de uma terrível fraqueza diante dos inimigos. Pede então que o rapaz o leve até a aldeia timbira. Lá chegando, exige, em nome da honra tupi, que a cerimônia antropofágica ritual seja completada e que o filho seja morto. Mas o chefe timbira recusa-se, acusando o guerreiro tupi de ter chorado covardemente diante de toda a aldeia. Neste momento, o velho cego amaldiçoa o seu descendente:

  13. Tu choraste em presença da morte?Na presença de estranhos choraste?Não descende o cobarde do forte;Pois choraste, meu filho não és!Possas tu, descendente malditoDe uma tribo de nobres guerreiros,Implorando cruéis forasteiros,Seres presa de vis Aimorés. (...)Sê maldito, e sozinho na terra;Pois que a tanta vileza chegaste,Que em presença da morte choraste,Tu, cobarde, meu filho não és. Mal termina a maldição, o velho escuta o grito de guerra do filho. Ouvindo o rumor da batalha, os sons de golpes, o pai percebe que o filho está lutando para manter a honra tupi, até que o chefe timbira manda seus guerreiros pararem, pois o jovem inimigo se batia com tamanha coragem que se mostrava digno do ritual antropofágico. Com lágrimas de alegria o velho tupi exclama: "Este, sim, que é meu filho muito amado!"

  14. Como chave de ouro do poema, ocorre uma transposição temporal no seu último canto. O leitor fica sabendo que os acontecimentos dramáticos vividos pelos dois tupis já tinham ocorrido muito tempo e que tudo aquilo era matéria evocada pela memória de um velho timbira: Um velho timbira, coberto de glória,guardou a memóriado moço guerreiro, do velho Tupi!E à noite, nas tabas, se alguém duvidava    do que ele contava,Dizia prudente: - Meninos, eu vi!

  15. A NATUREZA Enquanto poeta da natureza, Gonçalves Dias canta o mar, o céu, os campos, as florestas. No entanto, a natureza não tem um valor universal, só merecendo ser celebrada quando simbolizava seu país. Significativamente, ele deu a esta parte de sua obra o título de poesias americanas. Não é de surpreender também que no espetáculo e nos contornos da natureza brasileira, o poeta se elevasse até Deus. Assim, nacionalismo e panteísmo se mesclam em sua lírica. A celebração da natureza entrelaça-se também com o sentimento saudosista. Gonçalves Dias é um homem nostálgico que lembra a infância, os amores idos e vividos e, antes de mais nada, um homem que, na Europa, sentira-se exilado. Por isso, a memória a todo momento o arrasta até a terra natal. E a pátria aparece sempre como natureza: palmeiras, céu, estrelas, várzeas, bosques e o indefectível sabiá.

  16. Canção do exílio sintetiza genialmente esta identificação entre o país e sua expressão física. Desde o seu surgimento, tornou-se o poema mais conhecido do Brasil e, por derivação, o mais imitado e o mais parodiado. Talvez seja o nosso verdadeiro hino nacional. Contudo, se observamos este texto clássico, poderíamos argumentar que mesmo em Portugal, (onde o poema é escrito, no ano de 1843) há árvores e aves, bosques e várzeas. Aliás, em todos os países há uma natureza interessante a ser cantada. Mas, para Gonçalves Dias, é só na moldura do solo pátrio, que a natureza (brasileira) adquire um maior valor, um valor que em nenhum outro lugar ela pode ter. Estamos diante da essência do ufanismo romântico: minha pátria é a melhor. Por outro lado, trata-se de uma verdade humana definitiva: qualquer indivíduo no exílio - independente da terra natal ser boa ou ruim - sempre guardará por ela uma amorosa e obstinada saudade. Assim, não é de estranhar que Canção do exílio se transformasse no nosso poema:

  17. Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá;As aves, que aqui gorjeiam,Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas,Nossas várzeas têm mais flores,Nossos bosques têm mais vida,Nossa vida mais amores.Em cismar - sozinho, à noite - Mais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá.Minha terra tem primores,Que tais não encontro eu cá;Em cismar - sozinho, à noiteMais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá.Não permita Deus que eu morra,Sem que eu volte para lá;Sem que desfrute os primoresQue não encontro por cá;Sem qu'inda aviste as palmeiras,Onde canta o Sabiá." Mário Quintana       Minha terra não tem palmeiras...       E em vez de um mero sabiá,       Cantam aves invisíveis       Nas palmeiras que não há. Oswald de Andrade       Não permita Deus que eu morra       Sem que volte pra São Paulo       Sem que veja a Rua 15       E o progresso de São Paulo. Murilo Mendes       Minha tem macieiras da Califórnia       Onde cantam gaturamos de Veneza       (...)       Ai quem me dera chupar uma carambola de verdade       E ouvir um sabiá com certidão de idade!       Casimiro de Abreu       Eu nasci além dos mares:       Os meus lares,       Meus amores ficam lá!       - Onde canta nos retiros       Seus suspiros,       Suspiros o sabiá!

  18. Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá;As aves, que aqui gorjeiam,Não gorjeiam como lá.Nosso céu tem mais estrelas,Nossas várzeas têm mais flores,Nossos bosques têm mais vida,Nossa vida mais amores.Em cismar - sozinho, à noite - Mais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá.Minha terra tem primores,Que tais não encontro eu cá;Em cismar - sozinho, à noiteMais prazer encontro eu lá;Minha terra tem palmeiras,Onde canta o Sabiá.Não permita Deus que eu morra,Sem que eu volte para lá;Sem que desfrute os primoresQue não encontro por cá;Sem qu'inda aviste as palmeiras,Onde canta o Sabiá." Carlos Drummond de Andrade:       Um sabiá       Na palmeira, longe.       Estas aves cantam       Um outro canto       (...)       Só, na noite,       Seria feliz:       Um sabiá       Na palmeira, longe. Joaquim Osório Duque Estrada       Do que a terra mais garrida       Teus risonhos, lindos campos têm mais flores,       Nossos bosques têm mais vida       Nossa vida, no teu seio, mais amores. José Paulo Paes Canção do Exílio FacilitadaLá? Ah...Vida...Palmeira...Sabiá...Cá? Bah!

  19. O AMOR IMPOSSÍVEL A lírica amorosa de Gonçalves Dias é marcada pelo sofrimento. Em seus poemas, o amor raramente se realiza, é sempre ilusão perdida, impossibilidade vital de relacionamento. Entre a esperança e a vivência, entre a intenção e o gesto estão os abismos da experiência concreta. E a experiência concreta remete para o fracasso. "Cismar venturas e só topar friezas", eis a delimitação desse posicionamento. Em outro de seus versos, um dos mais desencantados, ele desabafa: "Amor! delírio - engano". Apaixonar-se é, pois, predispor-se à angústia e à solidão. O poeta confessa sua afetividade, suplica a paixão da mulher, mas não obtém resposta. Resta-lhe, pois, o desespero. Em poemas como Se se morre de amor, conseguiu dar dignidade a esse sofrimento:

  20. Se se morre de amor! - Não, não se morre,Quando é fascinação que nos surpreendeDe ruidoso sarau entre os festejos;Quando luzes, calor, orquestra e floresAssomos de prazer nos raiam n'alma (...)Simpáticas feições, cintura breve,Graciosa postura, porte airoso*Uma fita, uma flor entre os cabelos,Um quê mal definido acaso podemNum engano d'amor arrebatar-nos.Mas isso amor não é, isso é delírio,Devaneio, ilusão que se esvaneceAo som final da orquestra, ao derradeiroClarão, que as luzes no morrer despedem:Se outro nome lhe dão, se amor o chamam,D'amor igual ninguém sucumbe à perda. Amor é vida; é ter constantementeAlma, sentidos, coração - abertosAo grande, ao belo; é ser capaz d'extremos,D'altas vitudes, té capaz de crimes!Compreender o infinito, a imensidade,E a natureza e Deus; gostar dos campos,D'aves, flores, murmúrios solitários;Buscar tristeza, a soledade, o ermo,E ter o coração em riso e festa. Isso é amor, e desse amor se morre! (...)Amá-la, sem ousar dizer que amamos,E, temendo roçar os seus vestidos,Arder por afogá-la em mil abraços:Isso é amor, e desse amor se morre!"*Airoso: esbeleto, elegante

  21. Obras Indianistas

  22. A Segunda Geração Romântica

  23. A SEGUNDA GERAÇÃOINDIVIDUALISTA, ULTRA-ROMÂNTICA ou GERAÇÃO DO MAL DO SÉCULO Esta geração surgiu na década de 1850, quando o nacionalismo e o indianismo deixavam de fascinar a juventude e iniciava-se o longo processo de estabilidade do II Império. Por outro lado, o desenvolvimento urbano, o nascimento de uma vida acadêmica em São Paulo, Rio de Janeiro, Salvador e Recife e, até mesmo, uma relativa sofisticação dos estratos médios e superiores da estrutura social brasileira possibilitaram a criação de uma lírica voltada quase que exclusivamente para a confissão e o extravasamento íntimo. A nova geração foi influenciada pelo inglês Byron e pelo francês Musset, autores ultra-românticos que haviam se tornado os modelos universais de rebeldia moral, de recusa à insipidez da vida cotidiana e de busca de novas formas de sensualidade e de afeto. De sua imitação, resultou, quase sempre, o pastiche.

  24. Até sociedades satânicas, a exemplo das existentes na Europa, foram fundadas. Os adolescentes que as compunham viviam pretensas orgias e dissipações fantasiosas, que resultavam da leitura e das imaginações pervertidas. Na verdade, a pobreza do meio e a rigidez patriarcal impediam que este satanismo tivesse qualquer importância no contexto estético e ideológico brasileiro. Outro fato sempre lembrado desta geração é a dramática coincidência de quase todos os seus integrantes morrerem na faixa dos vinte e poucos anos. Versos soltos e alguns poemas parecem alimentar a suspeita de que esses jovens cultivavam idéias suicidas. No entanto, todos eles - à parte o caso mais complexo de Álvares de Azevedo - foram vitimados por doenças então incuráveis e manifestaram grande horror perante a morte. Não se sustenta, portanto, a idéia de um suicídio coletivo geracional.

  25. Álvares de Azevedo Vida:Nasceu na cidade de São Paulo e era descendente de duas ilustres famílias. O pai ocupara importantes cargos públicos (juiz de direito; chefe de polícia, deputado geral), tanto na capital paulista quanto no Rio de Janeiro, para onde se transferira com a família, passando a residir em Niterói. Toda a formação básica e secundária de Manuel Antônio Álvares de Azevedo foi feita na capital do Império. Em 1848, ele voltou a São Paulo para cursar a Faculdade de Direito, participando ativamente da vida acadêmica e literária de seu tempo. Revelou-se um aluno brilhante e um colega estimado, mas o caráter provinciano da Paulicéia, a mediocridade de sua vida social e a incapacidade do poeta de estabelecer um relacionamento amoroso concreto o tornaram bastante infeliz. Sentia saudades de casa, especialmente da mãe e da irmã, e a exemplo de seus companheiros de curso consumia-se na leitura dos autores malditos do Romantismo europeu. Este desnível entre as vidas intensas dos europeus e a pobreza de experiências dos universitários de São Paulo certamente o atormentava. Ele, porém, não se tornou um alienado das coisas locais. Numa sociedade acadêmica, que reunia os colegas, proferiu duro discurso contra a educação pública no Brasil, dizendo que ela era "um escárneo", em particular "a instrução primária para as classes baixas".

  26. Nas férias longas, entre o ano letivo de 1849 e 1850, os familiares repararam no caráter acabrunhado e melancólico do "Maneco". A leitura desenfreada dos ultra-românticos, a solidão e o desejo insatisfeito pareciam deprimi-lo, aproximando-o de inclinações mórbidas. No início de 1852, a tísica se manifestou. Como disse um de seus biógrafos: "O infeliz byroniano que durante anos declamara versos macabros por mero esnobismo via com horror chegar a sua morte." Neste momento dramático, escreveu alguns de seus poemas mais desesperados. Em seguida, após curta passagem pelo campo, na fazenda de um tio, pareceu se recuperar, chegando a pedir transferência de Faculdade - de São Paulo para Olinda, onde o clima seria mais propício à tuberculose - mas uma queda de cavalo afetou-lhe a região ilíaca. Os médicos resolveram operá-lo, obviamente sem anestesia. Ele suportou as dores, porém tudo foi inútil: a tísica havia destruído as imunidades de seu organismo. Poucos dias depois morreu. Era abril de 1852 e faltavam cinco meses para que completasse vinte e um anos de idade. Nenhum de seus livros tinha sido publicado. E a "glória que pressinto em meu futuro" , como ele diz em um de seus poemas, viria após o falecimento.

  27. Obras:Lira dos vinte anos (poemas - 1853), Noite na taverna (contos - 1855), O conde Lopo (poema - 1886), Macário (poema dramático - 1855). A obra de Álvares de Azevedo, fortemente autobiográfica, traz a marca da adolescência, mas de uma adolescência tão dilacerada e conflituosa que acaba por representar a experiência mais pungente do Romantismo brasileiro, tanto do ponto de vista pessoal quanto do ponto de vista poético. Incansável leitor, surpreendentemente culto, o jovem paulista viveu a contradição entre o saber livresco e os seus limites existenciais. Sua alternativa é o fingimento: "Finge um formidável conhecimento da vida", diz dele Mário de Andrade. Em muitos poemas expressa essa "pose de cinismo" que nasce, simultaneamente, da imitação dos ultra-românticos europeus e da fantasia delirante. Por sorte, no seu universo lírico, os temas se ampliam, superando o artificialismo byroniano, o que lhe assegura um lugar privilegiado na história literária do período. Quatro são os seus temas preferidos: o amor a morte o tédio o humor prosaico

  28. O AMOR É a parte menos convincente de sua lírica. A máscara satânica que tenta usar peca pela falsidade. As orgias em que submerge, os vícios que o escravizam e as dissipações que o arrastam para o lodo hoje provocam o riso do leitor. E não apenas porque o jovem escritor tenha ficado, de fato, virgem dessas vivências tresloucadas, mas porque - em seus poemas de "crimes morais e maldições" - poucos versos têm poder de persuasão e quase nada inquieta ou sobressalta. Veja-se o tom falso deste excerto: E por te amar, por teu desdém, perdi-me...Tresnoitei-me em orgias, macilento,Brindei, blasfemo, ao vício, e da minh'almaTentei me suicidar, no esquecimento!

  29. Amor e medo No entanto, como bem observou Mário de Andrade, o autor de Lira dos vinte anos (esse Dom Juan das aparências) acaba sendo traído pela própria interioridade. O grande devasso, o amante cínico, revela inconscientemente um medo obscuro das relações amorosas. Este medo se traduz, por exemplo, através da imagem da mulher adormecida. Numa série de poemas, a preparação erótica e a vontade sexual do adolescente se frustram, pois ele não quer acordar ("profanar") o objeto de seu desejo: Ó minha amante, minha doce virgem,Eu não te profanei, e dormes puraNo sono do mistério, qual na vida,Podes sonhar ainda na ventura.

  30. Em Soneto, um de seus textos melhor elaborados, Álvares de Azevedo descreve o sono da amada e cria sutil atmosfera que passa da idealização à sensualidade: Pálida à luz da lâmpada sombria,Sobre o leito de flores reclinada,Como a lua por noite embalsamada,Entre nuvens de amor ela dormia!Era a virgem do mar! na escuma friaPela maré das águas embalada...-- Era um anjo entre nuvens d' alvorada Que em sonhos se banhava e se esquecia!Era mais bela! o seio palpitando...Negros olhos, as pálpebras abrindo...Formas nuas no leito resvalando...

  31. Diante disso, desse "seio palpitando", dessas "formas nuas no leito resvalando" o que faz o poeta? Atira-se sobre a encantadora como um lobo cheio de volúpia? Não; a timidez entrava o erotismo e ele simplesmente opta por ficar sorrindo e chorando pelo seu "anjo": Não te rias de mim, meu anjo lindo!Por ti - as noites eu velei chorando,Por ti - nos sonhos morrerei sorrindo! Aliás, em vários momentos, quando o amor parece a ponto de se concretizar, o escritor prefere dormir, desmaiar ou morrer: "Na tua cheirosa trança / Quero sonhar e dormir!"; "Ah! volta inda uma vez! foi só contigo / Que à noite, de ventura eu desmaiava"; "E no teu seio ser feliz morrendo!"; "E morra no teu seio o meu viver!" No poema Tereza, chega a confessar explicitamente o seu medo: Não acordes tão cedo! enquanto dormesEu posso dar-te beijos em segredo...Mas, quando nos teus olhos raia a vida,Não ouso te fitar...eu tenho medo!

  32. De acordo com Mário de Andrade, algumas das dificuldades de Álvares de Azevedo com o amor nascem da velha dicotomia entre o sexo e o sentimento. A impossibilidade de unir alma e carne - segundo a tradição cultural então vigente - exaspera-o. Não existe mulher que possa corresponder às duas exigências. Há aquelas para o amor e há outras para os instintos. As primeiras, donzelas virginais, são - no dizer do crítico - "inatingíveis". As segundas, anjos caídos que cedem a pureza de seus corpos, são "desprezíveis". E assim o poeta permanece dilacerado: à sua timidez soma-se a ausência de uma mulher capaz de satisfazê-lo física e espiritualmente.

  33. A MORTE Quando trata da morte - o aspecto mais conhecido de sua obra - pode-se perceber com clareza as qualidades expressivas do artista. Ela é um tema constante. O poeta a antevê, a profetiza para si próprio, não pode esquecê-la. De certa maneira, fez uma opção por ela - diferentemente de outros companheiros de geração que se desesperam ao perceber o fim - quis morrer aos vinte anos, entregar-se à "leviana prostituta", como se vê neste fragmento de Hinos do Profeta: A morte, leviana prostituta,Não distingue os amantes!....Eu, pobre sonhador! eu, terra inculta Onde não fecundou-se uma semente,Convosco dormirei... Mesmo assim, há desespero e angústia nessa entrega. Ele lembra as coisas que vai perder, os afetos, o futuro. Lamenta-se por isso. Por outro lado, a morte é a possibilidade de resolução de sua crise, de suas dores. Se eu morresse amanhã cristaliza esta ambigüidade amarga:

  34. Se eu morresse amanhã, viria ao menosFechar meus olhos minha triste irmã;Minha mãe de saudades morreriaSe eu morresse amanhã!Quanta glória pressinto em meu futuro!Que aurora de porvir e que manhã!Eu perdera chorando essas coroasSe eu morresse amanhã!Que sol! que céu azul! que doce n'alvaAcorda a natureza mais louçã*!Não me batera tanto amor no peitoSe eu morresse amanhã!Mas essa dor da vida que devoraA ânsia de glória, o dolorido afã*...A dor no peito emudecera ao menosSe eu morresse amanhã!" Louçã: graciosa, encantadoraAfã: vontade, ânsia

  35. No poema Lembrança de morrer, Álvares de Azevedo dá instruções sobre o seu túmulo e sua lápide: Quando em meu peito rebentar-se a fibra,Que o espírito enlaça à dor vivente,Não derramem por mim nem uma lágrimaEm pálpebra demente.E nem desfolhem na matéria impuraA flor do vale que adormece ao vento:Não quero que uma nota de alegriaSe cale por meu triste passamento. (...) Descansem o meu leito solitárioNa floresta dos homens esquecida,À sombra de uma cruz, e escrevam nela- Foi poeta, sonhou e amou na vida.

  36. O TÉDIO Na segunda parte de Lira dos vinte anos, as fantasias eróticas, a avidez pelo amor, os artifícios byronianos e mesmo a obsessão pela morte, cedem lugar a uma espécie de cansaço existencial, o tédio. O tédio, ou "mal du siècle", para os românticos europeus, era uma espécie de cinismo e enfado de quem tudo viveu, tudo experimentou: sexo, bebidas, ópio, transgressões. Mais tarde, Baudelaire diria que lera todos os livros, amara todas as mulheres mas que sua carne permanecia triste. Esta é a definição mais perfeita do mal do século. Já no caso de Álvares de Azevedo, o tédio resultava da falta de vivências a que a cidade de São Paulo o condenava. Era uma cidadezinha provinciana, medíocre, de insípida vida noturna, sem horizontes para um rapaz sonhador. Quase a pique de "suicidar-se de spleen", o poeta atenua os excessos ultra-românticos descendo do sublime, da atmosfera rarefeita e terrível das grandes paixões, e entrando na verdade de suas coisas íntimas, expõe a subjetividade sem véus imaginários. E assim, descobrimos, por fim, o que ele realmente pensava e quem realmente ele era: um jovem tímido, inexperiente e sequioso de amor:

  37. Passei como Dom Juan entre as donzelas,Suspirei as canções mais doloridasE ninguém me escutou...Oh! nunca à virgem flor das faces belasSorvi o mel nas longas despedidas...Meu Deus! ninguém me amou! Poucas vezes, na literatura brasileira, as confissões de um adolescente adquiriram tanto frescor, beleza e emoção. Esta alma solitária e impotente debateu-se entre o tédio, que o arrastava para a realidade e os ideais, que precisava para sobreviver, como vemos nestes fragmentos de Idéias íntimas, talvez o mais sedutor de seus poemas: Vou ficando blasé*, passeio os diasPelo meu corredor, sem companheiro,Sem ler, nem poetar... Vivo fumando.Minha casa não tem menores névoasQue as deste céu de inverno...Solitário,Passo as noites aqui e os dias longos.Dei-me agora ao charuto em corpo e alma; (...)Não passeio a cavalo e não namoro.

  38. Reina a desordem pela sala antiga,Desce a teia de aranha as bambinelas*À estante pulvurenta*. A roupa, os livrosSobre as cadeiras poucas se confundem.Marca a folha do Fausto um colarinho (...)E resta agora aquela vaga sombra na parede- Fantasma de carvão e pó cerúleo* -Tão vaga, tão extinta e fumarentaComo de um sonho o recordar incerto. O pobre leito meu, desfeito ainda,A febre aponta da noturna insônia.Aqui lânguido à noite debati-meEm vãos delírios anelando um beijo...(...)Foram sonhos contudo. A minha vidaSe esgota em ilusões. (...)Oh! ter vinte anos sem gozar de leveA ventura de uma alma de donzela!E sem na vida ter sentido nuncaNa suave atração de um róseo corpoMeus olhos turvos se fechar de gozo! (...)

  39. Meu pobre leito! eu amo-te contudo!Aqui levei sonhando noites belas,As longas horas olvidei libando*Ardentes gotas de licor doirado.Esqueci-as no fumo, na leituraDas páginas lascivas do romance...(...)E a mente errante devaneia em mundosQue esmalta a fantasia! Oh! quantas vezes Do levante no sol entre odaliscas,Momentos não passei que valem vidas!Quanta música ouvi que me encantava!Quantas virgens amei! (...)Parece que chorei...Sinto na faceUma perdida lágrima rolando...Satã leve a tristeza! Olá, meu pajem,Derrama no meu copo as gotas últimasDessa garrafa negra...

  40. Eia! bebamos!És o sangue do gênio, o puro néctarQue as almas de poeta diviniza,O condão que abre o mundo das magias!Vem fogoso cognac! É só contigoQue sinto-me viver.(...)E eu me esquecia...Faz-se noite; traz o fogo e dois charutosE na mesa do estudo acende a lâmpada...* Blasé: entediado.* Bambinelas: cortinas.* Pulvurenta: empoeirada.* Cerúleo: da cor do céu. * Libando: bebendo.

  41. O HUMOR PROSAICO Um dos traços mais surpreendentes de Álvares de Azevedo é a ironia, resultante da descoberta do risível nas coisas prosaicas. Sem qualquer exacerbação sentimental, o poeta olha para tudo aquilo que o cerca e penetra humoristicamente no cotidiano. Nenhum romântico antes ou depois dele conseguiu efeitos tão engraçados e inesperados. No mais das vezes, a ironia tem rara fineza. Em Spleen e charutos, obra composta por seis poemas, o humor prima pela sutileza, como nesta estrofe de Solidão: Ó lua, ó lua bela dos amores,Se tu és moça e tens um peito amigo,Não me deixes assim dormir solteiro,À meia-noite vem cear comigo.

  42. PROSA E DRAMA Em Macário, Álvares de Azevedo intentou criar uma obra dramática em prosa. São cinco cenas de qualidade variável e pouco propícias à encenação. Na peça, um jovem, Macário, viajando rumo a cidade de São Paulo, onde vai estudar, pára numa estalagem no meio do caminho e faz amizade com um desconhecido mais velho, que é nada menos que o próprio Satã. Ambos iniciam então uma série de diálogos nos quais refletem cinicamente (em especial o diabo) sobre o sentido da vida, da morte, do amor e do sexo. Na segunda cena, quando abandonam a estalagem e marcham para São Paulo, ocorre o melhor momento da peça, pois Satã faz análises hilariantes da realidade paulistana. Observe-se este diálogo entre o estudante e o demônio:

  43. Macário:Por acaso há mulheres ali? (Em São Paulo)Satã: Mulheres, padres, soldados e estudantes. (...) Para falar mais claro as mulheres são lascivas, os padres dissolutos, os soldados ébrios, os estudantes vadios. Isso salvo honrosas exceções, por exemplo, de amanhã em diante tu.Macário: Esta cidade deveria ter o teu nome.Satã: Tem o de um santo: é quase o mesmo. Não é o hábito que faz o monge. Demais essa terra é devassa como uma cidade, insípida como uma vila e pobre como uma aldeia. (...) Até as calçadas...Macário: Que têm?Satã: São intransitáveis. Parecem encastoadas* as tais pedras. As calçadas do inferno são mil vezes melhores. Mas o pior da história é que as beatas e os cônegos cada vez que saem, a cada topada, blasfemam tanto com o rosário na mão que já estou enjoado. * Encastoadas: embutidas.

  44. Na terceira cena, na casa de Satã, já na cidade, a temática concentra-se na questão do amor, visto como ilusão e sentimento ligado à morte. Na cena seguinte, Macário acorda de novo na pensão, como quem acordasse de um longo sonho, porém marcas chamuscadas no assoalho sugerem a passagem real do diabo. A segunda parte da peça é assinalada pela presença de um personagem angelical (a antítese de Satã) chamado Penseroso. O artificialismo dos diálogos e a desarticulação das cenas tornam essa parte muito inferior à primeira. Quase no final, o puro Penseroso morre e Macário volta a se ligar com Satã, que então conduz o rapaz a uma orgia. Não para participar da mesma e sim para observá-la. E o que o demônio descortina para Macário parece ser o início de Noite na taverna: Macário: Onde me levas?Satan: A uma orgia. Vais ler uma página da vida; cheia de sangue e vinho - que importa? (...) Paremos aqui. Espia nessa janela.Macário: Eu vejo-os. É uma sala fumacenta. À roda da mesa estão sentados cinco homens ébrios. Os mais revolvem-se no chão. Dormem ali mulheres desgrenhadas... umas lívidas, outras vermelhas... Que noite!Satã: Que vida! Não é assim? Pois bem, escuta, Macário. Há homens para quem essa vida é mais suave que a outra. O vinho é como o ópio, é o Letes* do esquecimento... A embriaguez é como a morte...Macário: Cala-te. Ouçamos.

  45. Noites na Taverna Se fôssemos cobrar verossimilhança dos contos que compõem o livro Noite na taverna, certamente riríamos desses sete rapazes que bebem, fumam, gritam, e - enquanto a fumaça se mistura com os eflúvios da cerveja e do conhaque - narram histórias de suas vidas orgíacas e criminosas. Há algo de falsidade (e mesmo de bobagem pueril) nas cenas de necrofilia, incesto, canibalismo, assassinato e violação de todos os códigos morais que eles vão contando, falsamente horrorizados com o seu próprio desregramento. No entanto, apesar de sua total improbabilidade, esses relatos cínicos ainda hoje exercem uma sedução nos leitores, especialmente os mais jovens, mostrando que não se deve cobrar dos contos realismo e sim aquilo que eles representam simbolicamente. Tendências góticas? A partir do final do século XVIII e durante todo o Romantismo se desenvolveu um tipo de narrativa que ficou conhecida como gótico. Walnice Nogueira Galvão delimitou-o assim:

  46. O gótico invoca as potências das trevas e exerce o ocultismo, a feitiçaria, a missa negra, a necrofilia, o culto ao demônio. Num clima onírico sepulcral predominam o informe, o inquietante. Compõem o cenário o castelo mal-assombrado, o cemitério, as ruínas, a bruma, entre as imagens dos mundos ínferos, tais como a masmorra, o porão, o túmulo. Pouco se disfarçam a sedução da morte e do aniquilamento. A prosa tempestuosa mimetiza as pulsões e projeções do inconsciente, às voltas com a atração pelo sacrilégio e pela profanação. Ora, nos relatos curtos de Álvares de Azevedo predominam a concepção noturna da existência, a atração pela morte, o amoralismo com que se trai e se mata, além de compulsões incestuosas e necrófilas. Ou seja, elementos do gótico. O resultado é a criação de um mundo de sombras, onde indivíduos - torturados por impulsos proibidos - praticam ações que revelam o lado sujo e perverso de suas almas.

  47. Talvez Álvares de Azevedo quisesse indagar, como disse Antonio Candido - através de suas histórias macabras, perversas e até mesmo risíveis - sobre os limites da crueldade e das possibilidades diabólicas do ser humano. Tudo isso o aproxima do gótico e dá certa consistência aos contos que assim ultrapassam a dimensão da falsidade melodramática* e transformam-se em opressivo pesadelo. Como exemplo, podemos lembrar um desses relatos. • Melodramática: que apresenta exagero sentimental e gosto pelo patético. • Obs: O nome gótico veio do primeiro romance desta tendência: O castelo de Otranto, de Horace Walpole, cujo enredo (cheio de mistério e terror) se desenvolve em um velho castelo gótico. Entre os autores que seguiram esta linha encontramos Mary Shelley, com Frankenstein e Bram Stoker, com Drácula. Também há fortes traços góticos nas obras de Edgar Allan Poe e de Lord Byron.

  48. CASIMIRO DE ABREU Vida:Filho de um rico comerciante português e de mãe brasileira, Casimiro de Abreu nasceu em Barra de São João, no estado do Rio de Janeiro, tendo passado a infância numa fazenda, de onde sairia apenas para realizar seus estudos primários em Nova Friburgo. Enviado à capital do Império pelo pai, a fim de praticar o comércio, mostrou-se pouco apto à profissão. O pai não desistiu e com o mesmo objetivo o enviou para Lisboa. Casimiro tinha então quatorze anos. Após quatro anos em Portugal, retornou ao Brasil, entregando-se a uma vida boêmia, sem contudo largar do comércio. A publicação de Primaveras o consagrou nacionalmente, um ano antes de sua morte. Já idolatrado pelo público da época, descobriu que estava tuberculoso, vindo a falecer quase que imediatamente, antes de completar o seu vigésimo-segundo aniversário.

  49. Obra:Primaveras (1850). Subjetivista como Álvares de Azevedo, Casimiro de Abreu substitui as conotações dolorosas que aquele confere à adolescência por uma visão graciosa e deslumbrada dos tempos juvenis. Se, para o autor de Lira dos vinte anos, a mocidade é um processo noturno de vigílias e tensões, se, para ele, "tristes são os destinos deste século", para Casimiro de Abreu a mesma mocidade é "a primavera da vida", processo diurno, sempre associado a namoricos, jardins com bananeiras, borboletas e salões de baile onde se flerta ao som de valsas langorosas. De certa forma, sua lírica corresponde ao romance de Joaquim Manuel de Macedo, seja na temática, seja na simplicidade da linguagem. É uma poesia espontânea. E não raro esta espontaneidade - reforçada pelo estilo singelo e pela atmosfera musical - cria o encantamento no leitor, independentemente da visível superficialidade dos versos. A rigor, o livro Primaveras articula-se em torno de três temas básicos: o lirismo amoroso a saudade da pátria e da infância a tristeza da vida

  50. A SAUDADE DA PÁTRIA E DA INFÂNCIA Vivendo três anos em Portugal, onde elaborou boa parte de Primaveras, Casimiro de Abreu desenvolveu o sentimento de exílio, que tanto perseguia os românticos. Inspirado em Gonçalves Dias, escreveu uma série de poemas impregnados de nostalgia da terra natal, denominados Canções do exílio. Neles, contudo, não chega a alcançar o nível de seu modelo. No entanto, não é apenas a saudade do Brasil e a correspondente sensação de estar exilado que anima a sua lírica. O que o consagrou foi a nostalgia (tipicamente romântica) daquelas realidades pessoais que ficam para trás: a mãe, a irmã, o lar, a infância. Tornou-se, por excelência, o poeta da "aurora da vida", do tempo perdido, das emoções da meninice. Mesmo sabendo que a infância não significa o paraíso, sucumbiu à doçura dessas lembranças. À parte isso, o poeta atrai o leitor com o ritmo fácil, a singeleza do pensamento, a ausência de abstrações, o caráter recitativo e o tratamento sentimental que empresta ao tema, garantindo a eternidade de pelo menos um poema, Meus oito anos:

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